Homens Imprudentemente Poéticos de Valter Hugo Mãe

  • Editora: Porto Editora
  • Páginas: 216
  • Género: Ficção
  • Ano da Primeira Publicação: 2016

Classificação: 5/5

Não costumo ler muito Autores lusófonos. Confesso que, com excepção de Eça de Queiroz, até há bem pouco tempo, não conseguia identificar um autor português com quem me identificasse e cuja leitora aconselhasse de olhos fechados. Tudo mudou quando requisitei na biblioteca Homens Imprudentemente Poéticos do Autor português Valter Hugo Mãe. 

Depois da sua leitura, sinto mesmo que algo em mim mudou. Que narrativa bonita e cheia de significativo – poesia em prosa. Em Homens Imprudentemente Poéticos, cada palavra namora connosco de forma lenta e apaixonada e é, impossível. sermos a mesma pessoa depois de uma experiência de leitura tão profunda e apaixonante.  

“Num Japão antigo o artesão Itaro e o oleiro Saburo vivem uma vizinhança inimiga que, em avanços e recuos, lhes muda as prioridades e, sobretudo, a capacidade de se manterem boa gente.

A inimizade, contudo, é coisa pequena diante da miséria comum e do destino.

Conscientes da exuberância da natureza e da falha da sorte, o homem que faz leques e o homem que faz taças medem a sensatez e, sobretudo, os modos incondicionais de amarem suas distintas mulheres.” 

Li este livro em agosto de 2018 numa fase de alguma introspecção pessoal e, talvez por isso, a sua leitura tenha me marcado tanto. Como a própria sinopse nos diz, a história gira à volta de dois homens japoneses que vivem na completa miséria numa pequena aldeia localizada perto da floresta dos suicídios. Estes homens, vizinhos inimigos, conviveram sempre muito perto com a morte e o desespero pessoal de quem decide terminar a própria vida.

Se por um lado, a personagem Ítaro procura esconder o amor que tem dentro de si através da sua destruição e de um aparente sentido pragmático justificativo das suas atitudes, por outro Saburo vive os seus sentimentos de uma forma mais expansiva. Os dois têm em comum o facto de terem perdido as mulheres da sua vida, Ítaro porque entregou a sua irmã em casamento a um japonês abastado com o objetivo de lhe garantir um futuro longe da miséria, Saburo porque perdeu a sua amada esposa num ataque de animal.

Apesar de uma dor comum, os dois homens teimam em não aprender as respetivas mensagens que a vida lhes dá e em se odiarem porque, na verdade, precisam de sentir algo que não a dor que os consome.

Valter Hugo Mãe é um contador de histórias fantástico. A forma como escreve enaltece a língua portuguesa e transporta-nos para um mundo onde as palavras são sentimentos. Homens Imprudentemente Poéticos é uma prosa poética… uma parábola lindíssima sobre solidão, morte, loucura e redenção. 

O mundo de Itaro e Saburo é místico e sagrado. Lá falam-se de lendas, forças sobrenaturais, luz, revelações e penitências. Destaco uma poderosa passagem que envolve um dos nossos protagonistas num ato de penitência num fundo poço numa contemporânea alegoria da caverna.

Citações:

” A criada Kame gritava: Musumé onde estás tu? E a jovem Matsu respondia: no teu coração. A criada voltava a perguntar: e mais onde? Matsu respondia: Ao sol.” 

“No entanto, Itaro, de olhar magoado, odiava as flores. Era um deus revoltado com a sua criação. Criava com a impressão de que haveria de devorar a candura de que era capaz. A criação amava-o e ele devoraria o próprio amor.” 

“Num abraço, pensava, as pessoas deixavam de se poder ver. Como, se num abraço, fosse indiferente quem estava as importasse apenas a convicção com que era dado.”

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