Sobre o Feminismo e o nosso receio do Extraordinário

Sempre me considerei uma feminista. Ainda antes de ler o que quer que seja sobre o assunto já sabia que o era pela simples razão de que sempre foi muito claro para mim que todos os seres humanos são iguais. Tive a sorte de crescer numa altura em que as diferenças de tratamento entre meninos e meninas já não eram assim tao grandes… ou pelo menos achava eu que não. Hoje, apercebo-me que falar no tema do feminismo levanta, logo celeuma. Por qualquer razão esse é um tema relativamente ao qual ninguém quer falar.

Eu própria, durante muitos anos, não falei sobre o mesmo… nem quando sentia na pele o tratamento desigual por ser mulher. Ainda mais estranho é que o comportamento antifeminista não vem só do patriarcado. Muitas vezes somos nós mulheres as culpadas pelas nossas autolimitações. Não nos permitimos sonhar nem deixamos que as nossas colegas/ amigas/ compartes façam o mesmo. Somos, naturalmente, competitivas – seja no meio profisisonal ou pessoal – porque nos fizeram acreditar que a grandeza estaria reservada para algumas de nós e os lugares eram tão limitados que tínhamos de nos eliminar porque éramos uma ameaça. Estas ideias foram-nos incutidas das mais variadas formas e intensidades e têm, por isso, vivido connosco durante muito tempo. Talvez essa seja a razão pelo qual o feminismo não seja um movimento muito aceite no meio das massas. Hoje, altura em que o debate está tão aceso, é quase moda dizermos que não nos identificamos como feministas – fingirmos que estamos acima desta luta mundana pela igualdade de género. Mas quando questionamos alguém se é a favor que homens e mulheres ganhem o mesmo salário pelas mesmas funções, a resposta é imediatamente sim. Há pouco lia num livro algo deste género: como é possível defendermos a igualdade de género e negarmos, no entanto, todo o movimento político que esteve na sua base?

O problema tem que ver, do meu ponto de vista, com a perda do foco. Como todos os movimentos políticos, também o feminismo tem posições mais extremadas que olham para a igualdade de género de uma forma matemática. É exemplo disso a tentativa de incluir a expressão cartão de cidadã ou a revolta gerada relativamente a um café/barbearia que admite a entrada apenas a cavalheiros. Infelizmente, são estas posições que dão notícia e descredibilizam o feminismo como movimento político válido e atual.

O problema do feminismo no nosso país tem que ver com a falta de representação e fundamentação válida. A era da informação fácil, como a que vivemos hoje, torna possível que estejamos mais desinformadas do que há 20 anos atrás. Porque tudo se resume a ter algo o que dizer nas redes sociais. Não importa o quê, o que interessa é não estar calado. E, assim, se perdem os objetivos, a vontade, o foco no que realmente importa e, por último, a batalha pela igualdade.

Ser feminista não é negar a condição feminina, a biologia, o matrimónio, os filhos, a casa e tudo o mais que, desde sempre, esteve associado à condição feminina. Ser feminista é respeitar e aceitar a tua escolha, seja ela qual for, e defender o teu direito, enquanto mulher, a seres extraordinária.

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