A inesperada importância do Clube Literário

Nunca participei em projetos de leitura conjunta ou clubes literários de qualquer espécie. Para mim, ler era um processo muito pessoal e não fazia muito sentido dividir isso com alguém – até porque as pessoas com quem falava sobre literatura, não obstante as expressões sempre gentis, não tinham grande interesse no tema. Ler era algo solitário e eu convivia bem com isso… até descobrir o Instagram, mais concretamente as maravilhas do bookstagram.

Tudo mudou. Perfis como @bookster, @booksturnyouon ou @blogliteraturese fizeram-me ver que a literatura não estava em desuso e que havia toda uma comunidade de leitores no mundo e com vontade de partilhar a sua devoção aos livros. Bem, acabei eu própria por criar um perfil no Instagram dedicado à literatura aproveitando um nome que havia criado com outro objetivo. De seguida, criei o blog e por uns meses não partilhei nada. Não por não ter o que dizer mas porque queria enquadrar-me e vencer o terrível receio que tinha de qualquer tipo de exposição. Trabalhado o receio, comecei a postar e a interagir com outros perfis dedicados à literatura. Nesse momento, descobri os projetos de leitura conjunta e percebi que o que parecia estar em desuso eram, na verdade, os clubes literários pessoais. Todos os clubes que eu ia vendo eram, na verdade, digitais – projetos com lives e vídeos associados. Nada contra mas eu achava muito mais interessante um clube com reuniões pessoais onde todos pudessem falar e discutir as suas leituras. A @amulherqueamalivros.pt – outro perfil que eu adoro pela sua honestidade – organizava um clube literário pessoal na zona de Lisboa dedicado aos clássicos e era só. Não ouvia falar de mais nada do género.

Por esta altura já tinha uma vontade imensa de conviver com pessoas que gostassem de ler e juntá-las todas no mesmo sítio e, contra todas as minhas expectativas iniciais, acabei por iniciar um clube. Ontem foi batizado de Clube Literário Porta Setenta e eu não podia estar mais feliz por ter encontrado estas pessoas e por elas fazerem parte, em maior ou menor forma, da minha vida.

No sábado tivemos o nosso primeiro encontro que versou sobre a leitura de Homem-Tigre de Eka Kurniawan, autor indonésio contemporâneo, e foi tudo o que podia esperar e muito mais.

A troca de ideias e a discussão foi de uma elevação enorme e que bom que é falar com quem partilha dos nossos interesses. Falou-se do livro, das leituras paralelas de cada um, de feminismo, da legislação sobre os piropos, dos livros mais difíceis que cada um leu, entre outros temas. E desengane-se quem pensa que o encontro foi pautado por aquela intelectualidade elitista que ninguém gosta. O mais belo foi isso mesmo – o à vontade que todos sentiram em expressar o que sentiam.

Foi tão interessante perceber que todos nós, tendo lido exatamente o mesmo livro, tínhamos retido passagens e interpretado a mensagem de forma distinta. A história do livro, para quem não conhece, gira à volta de Margio – um jovem pacato – que certo dia mata o lascivo Anwar Sadatt, sem motivo aparente. O que ninguém sabe é que quem matou Anwar foi, na verdade, um tigre fêmea branco que Margio tem dentro de si.

Homem-Tigre é uma prosa lírica sobre a realidade da Indonésia rural com os seus preconceitos e lendas. Juntando elementos sobrenaturais com realidade, o livro fala de coragem, amor, esperança e heranças familiares. Não se trata de uma crime novel – o crime acaba por ser acessório – mas de um romance fantástico carregado de crenças e espiritualismo.

Todos nós, membros do clube, interpretamos de forma diferente o surgimento deste tigre fêmea. Houve quem entendesse que isto teria que ver com o próprio futuro da Indonésia e que a na verdade o Tigre seria uma dádiva atribuída aos que lutavam e tinham coragem de mudar o que estava mal. Outros, eu incluída, entenderam que o tigre era em si mesmo a personificação da coragem que surgia depois de anos de abusos, a vários níveis.

As teorias foram muitas assim como a diversão. Nunca pensei que participar num clube literário me fosse dar tanto gozo. Aliás, para ser honesta, nunca equacionei vir a tornar-me numa dessas leitoras que partilham tudo de forma efusiva… mas aqui estou eu.

🙂

A leitura do mês de março será Berta Isla de Javier Marías e eu não podia estar mais entusiasmada.

E por aí? Há alguém que integre algum clube literário?


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