Travessuras da Menina Má de Mario Vargas Llosa

  • Editora: Dom Quixote
  • Páginas: 376
  • Ano da Primeira Publicação: 2006
  • Género: Ficção/ Realismo Mágico

Ricardo Somocurcio é um menino peruano com o sonho de viver em Paris quando conhece Lily, uma chilena, que lhe rouba o coração. Lily não o ama de volta, não se chama Lily nem sequer é chilena. Ainda assim, o amor persiste no coração de Ricardo que vem a encontrar a sua chileninha ou menina má, como ele a apelida, muitos anos depois em Paris. Os dois envolvem-se e Ricardito, perdido de amores, planeia uma vida a dois. O problema é que a menina má é ambiciosa e teima em não aceitar a simplicidade e a mediocridade da vida que o seu amante lhe quer dar. Por conseguinte, a menina aparece e desaparece da vida de Ricardo conforme as suas vontades e necessidades. De todas as vezes, Ricardo ama-a com a mesma intensidade com que ela lhe parte o coração.

Antes demais, importa referir que eu não gosto, em geral, de histórias de amor. É um género literário que não me fascina porque, para mim, criar uma história de amor entre duas pessoas requer enorme saber e nem sempre os Autores compreendem isso. Posso adiantar que poucas foram as histórias de amor que me cativaram. Facilmente se cai no ridicularização das personagens com conceitos e frases absolutamente irrealistas ou então se criam interações desprovidas de qualquer sentido.

Por isso, por norma, não gosto de histórias de amor.

Talvez por essa razão não posso dizer que esta leitura foi inesquecível mas a escrita de Vargas Llosa, definitivamente, tornou-a marcante. Dizem as línguas viperinas que Travessuras da Menina Má é uma ficção levemente autobiográfica do autor. Confesso que não imaginava Vargas Llosa no papel do nosso narrador porque o Ricardo é a personagem mais ingénua e impávida que eu já tive o prazer de ler. Como ele próprio nos diz, ele era tão boa pessoa que toda a gente o chamava de Ricardito. E, talvez, por isso se tornou presa fácil da menina má que, por contraposição, é mentirosa, interesseira e egoísta. O fascínio de Ricardo pela menina má é difícil de perceber mas, de alguma forma, não conseguimos deixar de torcer para que aquela relação perturbadora dê certo. De todas as vezes que a menina má aparece na vida de Ricardo, nós sabemos que aquilo vai correr mal e que uma manhã qualquer ela vai desaparecer mas, intimamente, à medida que vamos esfolhando as páginas desejamos que aquilo, que é deveras óbvio, não aconteça. Esta dinâmica prende-nos ao longo dos vários capítulos e, a certa altura, a repulsa pelo comportamento da menina má é tanta que continuamos a ler na expectativa de ver Ricardo terminar, de vez, com ela e até fazê-la sofrer e pagar pelo que lhe fez ao longo dos anos.

Tudo isto se passa na segunda metade do século XX em vários pontos do mundo – desde a Paris boémia dos anos 50 a Madrid dos anos 2000 passando pela explosão de cultura de Londres dos anos 70 e pelo Japão dos anos 90.

Vargas Llosa escreve com mestria e apresenta-nos o mundo pelos seus olhos utilizando Ricardo e a sua menina má numa das relações mais sensuais e problemáticas que tive o prazer de ler.

As Citações Preferidas

“Na segunda metade dos anos 60, Londres destronou Paris como cidade das modas que, partindo da Europa, se espalhavam pelo mundo. A música substituiu os livros e as ideias como centro de atração dos jovens, sobretudo a partir dos Beatles, mas também de Cliff Richard, dos Shadows, dos Rolling Stones com Mick Jagger e outros grupos e cantores ingleses e dos hippies e da revolução psicadélica dos flower children.”

“Carnaby Street substituiu Saint-Germain como umbigo do mundo. Em Londres nasceram a minissaia, os cabelos compridos e as extravagantes indumentárias que os musicais Hair e Jesus Christ Superstar consagraram, a popularização das drogas, a começar pela marijuana e a terminar no ácido lisérgico, o fascínio pelo espiritualismo hindu, o budismo, a prática do amor livre, a saída do armário dos homossexuais e as campanhas de orgulho gay, assim como uma rejeição em bloco do establishment burguês, não em nome da revolução socialista a que os hippies eram indiferentes, mas sim de um pacifismo hedonista…”

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