Dez Clássicos que Deveriam ser de Leitura Obrigatória

Sendo a presente secção dedicada às mais variadas listas literárias, nada melhor do que a inaugurar com um conjunto de títulos que muitas vidas mudaram e continuarão, certamente, a mudar no futuro. No seu livro de ensaios “Porquê ler os Clássicos?”, Italo Calvino procura definir o clássico como aquele livro intemporal que é mais vezes relido do que efetivamente relido. Nas suas palavras:

“Um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer”

Italo Calvino in Porquê ler os Clássicos?, disponível aqui.

E eu não poderia concordar mais. Peguem num Eça, Dostóievski, Shakespeare, Sófocles, Steinbeck e digam-me se não conseguem traçar paralelos entre vários aspetos das suas obras e a realidade contemporânea. Isso acontece, na minha opinião, porque o Autor clássico é aquele que, de alguma forma, fala sobre a própria natureza humana que sofisticando-se, mais ou menos, mantém sempre os seus traços originais mais básicos. Sem querer filosofar, lanço aqui uma lista de dez clássicos que me marcaram profundamente e que, pela sua qualidade e mensagem, deveriam ser de leitura obrigatória.

  • 1984 de George Orwell

Publicado em 1949 pelo Autor britânico George Orwell, 1984 é uma distopia que reflete sobre os perigos do totalitarismo e da repressão. Mostrando o comportamento resignado dos indivíduos em sociedade quando confrontados com a ausência de liberdade, Orwell apresenta-nos um mundo onde a estrutura governamental se impõe, de forma absurda, na vida de cada um. Numa era em que cada vez mais questionamos a existência de alternativas ao sistema democrático, 1984 parece ser uma leitura cada vez mais pertinente.

  • O Conde de Montecristo de Alexandre Dumas

A mais épica história de vingança alguma vez escrita. Edmond Dantes passa 15 anos da sua vida na prisão por um crime que não cometeu. Quando, finalmente, consegue saborear a liberdade, Edmond não pensa em mais nada a não ser vingar-se de todos os que o tramaram. Para o efeito, traça um pérfido plano que exporá as fragilidades e hipocrisias da sociedade parisiense do século XIX.

  • O Crime do Padre Amaro de Eça de Queiroz

Um dos romances mais controversos e, consequentemente, conhecidos de Eça de Queiroz. A história do Padre Amaro que, obrigado a abraçar a vida clerical, vive um romance sórdido com bela filha de uma beata da sua paróquia. Primeira obra do movimento realista português, O Crime do Padre Amaro é uma critica sagaz à sociedade Portuguesa, em especial à ligação entre a comunidade mais rural e a igreja.

  • Margarita e o Mestre de Mikhail Bulgakov

Com clara inspiração na obra Fausto do autor alemão Goethe, Margarita e o Mestre oferece um olhar irónico sobre a vida soviética. Apresentando duas narrativas distintas mas interligadas – uma em Moscovo nos anos 30 e outra em Jerusalém aquando da crucificação de Cristo – a obra trata temas importantes como liberdade e servidão apresentando personagens absurdas. Uma sátira absolutamente deliciosa!

  • O Senhor dos Anéis de J. R. R. Tolkien

Clássico de fantasia que dispensa grandes apresentações. A obra de Tolkien confronta o bem e o mal num mundo novo extremamente criativo que evoca elementos de filosofia, filologia, mitologia e religião. Uma obra complexa que influenciou, de forma inegável, o universo literário fantástico que se lhe sucedeu.

  • Lolita de Vladimir Nabokov

Se houve romance que levantou vozes polarizadas quanto ao seu brilhantismo foi Lolita do autor Russo-Americano Vladimir Nabokov. Profundamente subversivo, o livro conta-nos a história, pela sua própria voz, de Humbert Humbert, um velho de 40 anos, que se apaixona por Lolita de apenas 12 anos. Extremamente bem escrito, Lolita apresenta o narrador como figura central e, por isso, pouco confiável criando no leitor dúvidas sobre a veracidade e compreensão dos factos que lhe são relatados.

  • O Monte dos Vendavais de Emily Brontë

Romance gótico do século XIX que relata a paixão tempestuosa e doentia existente entre Heathcliff e Catherine Earnshaw e, consequente, destruição da família desta por aquele. Uma narrativa magistral e poética que apresenta personagens fortes e carismáticas susceptíveis de despertar no leitor as mais envolventes sensações tais como angústia, repulsa, pena e esperança.

  • A Sangue Frio de Truman Capote

Considerada primeira obra de não ficção escrita em tom jornalístico sobre um crime real, A Sangue Frio é também o grande livro da carreira de Capote. A história do homicídio de quatro elementos de uma família em Holcomb, Kansas, por dois jovens, sem motivo aparente. O livro explora as reações dos habitantes de Holcomb, o perfil dos assassinos e os seus motivos e toda a investigação policial que culminou na sua condenação.

  • A Queda de um Anjo de Camilo Castelo Branco

Romance satírico de Camilo Castelo Branco que explora a ascensão e corrupção de Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas, fidalgo transmontano, quando este se desloca da província para Lisboa. Não obstante integrar-se no estilo ultra-romântico do autor, A Queda de um Anjo apresenta uma visão mais obscura da sociedade portuguesa e da transição para modernidade.

  • A Metamorfose de Franz Kafka

Com menos de uma centena de páginas, a Metamorfose é um dos livros mais importantes alguma vez escritos. Kafka apresenta, logo no primeiro parágrafo, o clímax da sua obra explicando que Gregor, uma caixeiro-viajante, acordou de manhã na pele de um insecto asqueroso. Partindo desta premissa absurda, o Autor reflete sobre alienação, obsessão, culpa e ódio. Considerado por muito, o grande percursor do realismo mágico.

Com vontade ler algum destes livros? Podes encontrá-los aqui.

(2) Comments

  1. Rosa Barbosa says:

    A literatura é o prolongamento da memória do ser humano. Com salpicos de realismo, mitologia entre muitos outros, mas todos eles pertencem e são intrínsecos à mente humana. Nada melhor que ler e reler boas obras, tais como as mencionadas. Parca é a mente que se abstem de ler, ato que te faz crescer, viajar e entender melhor a humanidade!

    1. Daniela Guimarães says:

      É tão verdade. Para mim, a literatura é isso mesmo… um mundo de possibilidades de crescimento intelectual e emocional. Uma das mais preciosas manifestações de existência e profundidade humana. Que nunca percamos os nossos livros, a lucidez, a empatia e a vontade de sonhar.

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