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O Som e a Fúria de William Faulkner

  • Editora: Coleção Mil Folhas – Público
  • Páginas: 285
  • Ano da Primeira Publicação: 1929
  • Género: Ficção

Classificação: 4/5

O Som e a Fúria de William Faulkner foi, seguramente, uma das leituras mais difíceis que tive o enorme prazer de fazer. Através de quatro relatos distintos, o Autor apresenta-nos a decadente família Compson. Descendentes de um general sulista, os Compson debatem-se, no início do século XX, com perda do seu estatuto social e a entrada num novo século onde a segurança financeira depende muito mais do que de um nome de família. Como personagem central, surge a jovem Caddy, tempestuosa e apaixonada que com as suas ações afeta, de forma determinante, o futuro de cada um dos seus irmãos: o autista Benjy, o idealista e depressivo Quentin e o cínico Jason.

A história é explorada sob o ponto de vista dos irmãos de Caddy e de um quarto narrador omnisciente que se foca na perspetiva da criada da família Compson, a matriarca de raça negra Dilsey. Assim, cada uma das partes do livro tem a sua própria caracterização assumindo a visão pessoal de cada um dos personagens. A primeira parte d’O Som e a Fúria surge narrada por Benjy, pautando-se, pelas razões ligadas às suas limitações mentais, pela incoerência e desprovimento de sentido.

“Uma cobra saiu a rastejar de debaixo da casa. O Jason disse que não tinha medo das cobras e a Caddy disse que ele tinha, mas que ela não, e o Versa disse que tinham os dois e a Caddy disse-lhe que se calasse, como o Pai tinha mandado.

Agora não comece a berrá, disse o T.P. Qué salsaparrilha. A salsaparrilha fez-me cócegas no nariz e nos olhos.”

Já a segunda parte é narrada por Quentin que, não obstante, o elevado Q.I., atravessa por um período de profunda instabilidade mental. Assim, os seus relatos são caracterizados por sentimentos de angústia, tristeza e desespero.

“Dou-to, não para que te lembres constantemente do tempo, mas para que te possas esquecer dele de vez em quando, sem depois te esfalfares na ânsia de o recuperares. Porque, como ele dizia, nenhuma batalha se pode considerar ganha. Nem sequer travada. O campo de batalha apenas revela ao homem a sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos.”

O Autor recorre, sem regras, à técnica do fluxo da consciência levando o leitor num caleidoscópio de emoções e factos desconexos. Apesar disso, é possível apreender alguns dos factos que motivam toda a narrativa sendo que, inegavelmente, o sentido apura-se a partir da terceira parte. Aqui, o leitor é, pela primeira vez, confrontado com um narrador assertivo, que assume a pele do irmão mais novo de Caddy, Jason. A história assume-se, agora, como sendo linear, concreta e fluída.

“Quem nasce puta morre puta, é o que eu digo. Cá para mim, tem muita sorte se a única coisa que a preocupa é ela faltar às aulas. Cá para mim, ela devia era estar lá em baixo na cozinha, neste momento, em vez de estar lá em cima no quarto a pintar-se toda à espera que seis negros lhe preparem o pequeno-almoço, seis negros que nem se conseguem levantar de uma cadeira a não ser que tenham uma panela cheia de pão e carne para os equilibrar.”

Continuando, nesse registo, na quarta e última parte onde um narrador, omnisciente que não conhecemos, fala da perspetiva de Dilsey, a criada da família Compson. Os factos narrados pelos diferentes intervenientes reconduzem-se a quatro datas distintas: sete de abril de 1928; dois de junho de 1910; seis de abril de 1928 e oito de abril de 1928.

Uma leitura mais do que desafiante e indicada para todos os que apreciam ir para além do óbvio. Faulkner escreve com mestria transmitindo, na perfeição, o ambiente que rodeia a família Compson. Incrível como, mesmo sem perceber o que se passa, o leitor tem aquela sensação de tragédia eminente que o deixa ansioso pela próxima página.

Dica: Depois de concluída a leitura do livro, reler a primeira e a segunda parte. A experiência será completamente distinta.

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