As Brumas de Avalon: A Rainha Suprema de Marion Zimmer Bradley

  • Editora: DIFEL – Difusão Editorial, Lda.
  • Páginas: 315
  • Ano da Primeira Publicação: 1982
  • Género: Ficção/Fantástico

Classificação: 4/5

O segundo volume d’As Brumas Avalon apresenta-nos personagens novas incrivelmente interessantes abordando a lei do Rei Artur, não só do ponto de vista feminino, mas igualmente teológico. O leitor é agora confrontado com o lado dos que apoiam a religião católica, personificado na esposa de Arthur, Gwynhefar, por contraposição ao paganismo, desta personificado por Morgaine. Esta por sua vez, dá a luz ao filho de Arthur e embarca numa jornada espiritual ao país das fadas onde conhece alguns dos sagrados mistérios da natureza. Já Gwynhefar vive com Arthur um casamento infeliz marcado pelo seu amor a Lancelet e pela sua incapacidade de levar uma gravidez a termo. A inexistência de um herdeiro cria no casal real a convicção de que Deus os está a castigar por não lutarem contra o paganismo. Neste contexto, a divisão entre Arthur e Morgaine cresce, simbolizando o confronto entre a Deusa mãe de todas as coisas e o Deus católico que vê a mulher como portadora do pecado original. 

Ao contrário do primeiro volume da saga, onde acompanhámos o crescimento de Morgaine, a Rainha Suprema traz um enredo complexo que assenta na rivalidade entre duas mulheres. Há um tom mais político no enredo que se traduz, fundamentalmente, na influência que Gwenhwyfar teve no reinado de Arthur. O crescimento desta personagem foi bem construído conseguindo relegar Morgaine para um segundo plano. Gwenhwyfar inicia o livro como sendo uma jovem ingénua temente a Deus para, depressa, se assumir como uma força motriz para a expansão do cristianismo.

“Subitamente, num impulso de bondade, desejou poder dar a Gwenhwyfar, que afinal fora educada num convento e não possuía nada da velha sabedoria, alguns dos conselhos dos conselhos dados às jovens sacerdotisas. Desse modo, saberia como deixar as correntes vitais do Sol, do Verão, da Terra e da Vida fluírem através dela. Tornar-se-ia verdadeiramente a Deusa para Arthur e ele o Deus para ela, para que o casamento não fosse uma forma vazia, mas uma autêntica união interior a todos os níveis da vida… Deu por si a procurar as palavras para lhe dizer, mas nessa altura lembrou-se que Gwenhwyfar era cristã e não lhe agradeceria tais ensinamentos.”

O crescimento de Gwenhwyfar é acompanhado de uma culpa pessoal enorme pelo facto de não conseguir dar um herdeiro a Arthur. Utilizando a conceção religiosa dominante, a Autora torna Gwen numa Rainha culpada e frustrada pela sua inabilidade para ter filhos como se a maternidade fosse o que define a feminilidade. Simultaneamente, temos um afastamento de Morgaine que procura conhecimento junto do país das fadas exercendo a sua liberdade e poder feminino longe dos constrangimentos e restrições dos homens cristãos. Tal tem, claramente, efeitos nocivos me Gwen que, na verdade, parece ambicionar a liberdade e aparente libertinagem de Morgaine. 

“Sentia a falta de Morgaine, sim… mas tomando tudo em consideração, estava satisfeita por Morgaine não estar na corte, e mão iria mandar nenhuma mensagem a Tintagel para saber dela, sé que lá estava. Imaginou-se a repetir a Morgaine o que Arthur lhe dissera; morreria de vergonha, e no entanto, desconfiava que Morgaine se riria dela (…) Então foi como se uma chama ardente a percorresse, como o fogo do inferno, só de pensar que se poderia oferecer a Lancelet. (…) Teria vergonha de falar sobre isso mesmo aos padres pois eles julgariam  que Arthur era menos cristão (…)”

Morgaine e Gwenhwyfar representam duas faces de uma mesma moeda ou “uma mesma pessoa” como a primeira acaba por concluir. Afinal, as duas pugnam por uma voz e uma liberdade que lhes teimam em negar.

As Brumas de Avalon adquirem, agora, um tom mais adulto e, por isso, mais cativante. Foi uma leitura incrível que despertou, em mim, os mais variados sentimentos desde ansiedade, revolta, curiosidade, paz e vontade de saber mais sobre a Lenda do Rei Artur. 

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