As Brumas de Avalon: O Rei Veado de Marion Zimmer Bradley

  • Editora: DIFEL – Difusão Editorial, Lda. 
  • Páginas: 307
  • Ano da Primeira Publicação: 1982
  • Género: Ficção/Fantástico 

Classificação: 4/5

O terceiro volume d’As Brumas de Avalon prenuncia aquele que será o fim de Arthur ao explorar o surgimento de Gwydion, filho daquele com Morgaine. A par deste novo ator político, Morgaine é afastada da corte regressando às suas raízes pagãs e Gwenhwyfar envereda, cada vez mais, pelo fanatismo religioso levado com ela Arthur e toda a Bretanha.

A par dos seus antecessores, O Rei Veado não desilude ao oferecer confrontos e diálogos emocionantes e polarizados que trazem à mesa o eterno conflito paganismo/cristianismo. Pelo meio, a trama familiar vai-se adensando com o surgimento de uma nova personagem que revela ser perspicaz e ambiciosa. Outra aspeto interessante é o regresso de Morgaine a casa, ocupando o seu lugar de Sacerdotisa e representante da Deusa na Terra. O crescimento das personagens é, neste livro, evidenciado de forma magistral. É enriquecedor para o leitor acompanhar a transformação de Morgaine e Gwenhwyfar que, não obstante, começarem num lugar bom vão-se afastando cada vez mais da ingenuidade e vontade de trazer a paz à Bretanha. No final, acabam as duas por se render ao fanatismo justificando as suas ações com a necessidade de falar a voz de Deus.

“Viviane nunca sentira escrúpulos que a impedissem de interferir na vida dos outros, quando isso era para o bem de Avalon ou do reino. Nem ela devia tê-los. No entanto, fora adiando as coisas (…) Não, disse para consigo amargamente, se algum deles tivesse tido alguma inteligência ou capacidade para se apercebera lógica ou da razão das coisas, então Lancelet já devia ter casado comigo há anos. Agora, é a altura de agir.”

A obra vai-se adensando sem perder o ponto de vista feminino que sempre lhe foi característico. A Autora continua a confrontar as personagens com questões de liberdade e autodeterminação feminina explorando os efeitos que a religião tem na configuração social do papel da mulher. A certa altura, o livro aborda os efeitos da violação sexual, apresentando uma perspetiva chocante com raíz claramente misógina.

“E então ouviu, como se tivesse estado presente, a voz de um padre a falar com a trémula Gwenhwyfar – seria agora, ou teria sido quando Gwenhwyfar era criança? -, a dizer-lhe que nenhuma mulher era violada se não tivesse tentado algum homem a fazê-lo, tal como Eva levou o nosso primeiro pai, Adão, a pecar; que as sagradas virgens mártires de Roma tinham morrido de boa vontade, de preferência a perderem a sua castidade… Era isso que fazia Gwenhwyfar tremer. Algures na sua mente, por muito que tentasse esquecê-lo nos braços de Lancelet, acreditava sinceramente que a culpa era sua, que merecia a more pelo pecado de ter sido violada e de ter ficado viva.”

Ora, dizer que O Rei Veado é surpreendente não chega para classificar esta obra de fantasia ímpar. Continuando a apostar no tom filosófico e teológico, a Autora insere, agora, na história momentos de tensão e intriga que surpreendem o leitor. As personagens vão sofrendo alterações de carácter complexas ultrapassando as suas aparentes fragilidades femininas. Talvez por essa razão, este volume tornou-se o meu favorito da saga. Há diálogos carregados de emoção e evocativos de dilemas humanos maiores. Há confronto e tensão que se reflete nas atitudes das diferentes personagens como se todas adivinhassem já um pouco do seu destino. E há profundidade que é algo difícil de encontrar numa obra de fantasia.

Por tudo isto e o que foi escrito relativamente aos outros volumes d’As Brumas de Avalon, esta é uma história para ser devorada por todos os que se interessam por fantasia histórica, em particular pelo período relativo à formação da Bretanha unificada.

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