Oito livros que nem sempre lograram sucesso junto da crítica especializada

O que é que torna um livro num grande clássico? Ou num candidato sério ao Pulitzer, Prémio Camões, Man Booker Prize? Quem decide que uma determinada obra é intemporal? Dir-se-á a crítica especializada que será, na maioria das vezes, constituída por pessoas instruídas na arte literária. Mas a história ensinou que, nem sempre, o critico esteve à altura da obra e, muitas vezes, se criticou negativamente livros que, mais tarde, vieram a tornar-se grandes romances da literatura mundial determinando tendências e géneros.

Há quem argumente que o crítico tem tendência para glorificar o que não compreende. Eu acho que é o contrário. Glorifica-se o que é compreensível e destrói-se o que parece inatingível ao nosso intelecto. Se é assim com o resto das coisas, porque não será com os livros?

Esta é a explicação que encontro para algumas das críticas que transcreverei abaixo. Outras, se calhar, contarão com a minha concordância. Hey, o meu intelecto consegue, também, ser muito limitado.

  • Wuthering Heights de Emily Brontë

Considerado um dos maiores romances da língua inglesa, O Monte dos Vendavais dispensa grandes apresentações. Expoente do género literário gótico, a história de Heathcliff e Catherine foi escrita por uma das irmãs Brontë sob o pseudónimo de Ellis Bell, por forma a convencer os críticos de que o romance havia sido escrito por um homem. Ainda assim, as críticas, por altura da sua publicação, foram destrutivas tendo a obra obtido o merecido reconhecimento após a precoce morte da sua Autora.

A oito de janeiro de 1948, o jornal Examiner publicava acerca do livro:

“This is a strange book. It is not without evidences of considerable power: but, as a whole, it is wild, confused, disjointed, and improbable; and the people who make up the drama, which is tragic enough in its consequences, are savages ruder than those who lived before the days of Homer.”

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  • The Great Gatsby de F. Scott Fitzgerald

No ano da sua publicação, 1925, The Great Gatsby vendeu um total de 20 000 cópias. Um número baixo que, felizmente, não veio a determinar o sucesso futuro da obra de Fitzgerald. Ainda assim, o Autor morreu acreditando que era um completo fracasso tendo, certamente, contribuído para tal entendimento algumas das críticas tecidas aquele que, hoje, é largamente considerado como o maior romance norte-americano de todos os tempos.

A este respeito, H.L. Mencken escreveu, em 1925, no Chicago Tribune:

“Scott Fitzgerald’s new novel, The Great Gatsby is in form no more than a glorified anecdote, and not too probable at that. The scene is the Long Island that hangs precariously on the edges of the New York City trash dumps—the Long Island of the gandy villas and bawdy house parties. The theme is the old one of a romantic and preposterous love—the ancient fidelis ad urnum motif reduced to a macabre humor. The principal personage is a bounder typical of those parts—a fellow who seems to know every one and yet remains unknown to all—a young man with a great deal of mysterious money, the tastes of a movie actor and, under it all, the simple sentimentality of a somewhat sclerotic fat woman.”

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  • Sound and Fury de William Faulkner

Hoje, é inegável que O Som e a Fúria é considerado um dos melhores livros de sempre ocupando, com frequência, lugares de destaque nas listas elaboradas pela crítica. No entanto, aquando a sua publicação em 1931, o já quarto romance de William Faulkner não teve grande repercussão junto dos leitores e da crítica. Só mais tarde, quando Faulkner publicou o seu sexto romance Santuário é que os leitores se voltaram, de forma mais atenta, para a sua obra.

Em 1930, o crítico Clifton Fadiman descrevia O Som e a Fúria como “Hardly Worth While” dizendo que:

“The theme and the characters are trivial, unworthy of the enormous and complex craftsmanship expended on them”

Farkas, Aliz. (2017). Critical Reception of William Faulkner’s. Acta Universitatis Sapientiae, Philologica. 9. 10.1515/ausp-2017-0025. 

  • Brave New World de Aldous Huxley

Uma das maiores distopias alguma vez escritas, Admirável Mundo Novo divide o pódio com 1984 de George Orwell e Laranja Mecânica de Anthony Burgess. O reconhecimento do mérito da obra é, atualmente, universal mas nem sempre foi assim. Em 1932, após a sua publicação, a reputada crítica e Autora Margeret Cheney Dawson escrevia:

“Mr. Huxley has the jitters. Looking back over his career one can see that he has always had them, in varying degrees… [he] rushes headlong into the great pamphleteering movement. [Brave New World] is a lugubrious and heavy-handed piece of propaganda.” 

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  • Lolita de Vladimir Nabokov

Ainda, hoje, objeto de enorme controvérsia, a história de Humbert Humbert e do seu fascínio com Lolita recebeu, por alturas da sua publicação em 1955, duras críticas. Se por um lado, era inegável que a obra estava incrivelmente bem escrita, por outro, os seus óbvios traços eróticos chocavam as mentes mais puritanas. Por essa razão, o clássico moderno de Nabokov foi classificado, por diversas vezes, como sendo um livro pornográfico tendo, inclusive, a sua publicação sido recusada por várias editoras.

A este respeito, o autor e crítico Kingsley Amis escreveu, no periódico Spectator:

“bad as a work of art, and morally bad…a Charles Atlas muscle-man of language as opposed to the healthy and useful adult.”

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  • To Kill a Mockingbird de Harper Lee

Ao contrário dos seus antecessores, Harper Lee conheceu imediato sucesso com a publicação do seu romance To Kill a Mockingbird. Não só os leitores ficaram completamente rendidos à história de Atticus Finch como, igualmente, a crítica encontrou em Harper uma autora favorita. Mas não há obra que agrade a gregos e troianos e, também, Mataram a Cotovia teve a sua significativa quota-parte de críticas negativas.

A título e exemplo, transcreve-se um excerto da crítica de Frank H. Lyell publicada no The New York Times Book Review:

“The praise that Miss Lee deserves must be qualified somewhat by noting that oftentimes the narrator’s expository style has a processed, homogenized, impersonal flatness quite out of keeping with the narrator’s gay, impulsive approach to life in youth. Also, some of the scenes suggest that Miss Lee is cocking at least one eye toward Hollywood…” 

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  • The Handmaid’s Tale de Margaret Atwood

Entre consumidores de livros e séries, não deve haver, hoje, ninguém que não conheça esta obra impar de Atwood. No entanto, nem sempre The Handmaid’s Tale teve tanto sucesso e reconhecimento junto dos leitores e dos críticos. Em 1985, ano da sua publicação, o livro de Atwood não se livrou de comparações com 1984, Admirável Mundo Novo ou Laranja Mecânica sendo que o papel da mulher no mundo literário das distopias era completamente ignorado.

Por esta altura, poderia ser lido no New York Times:

“But the most conspicuous lack, in comparison with the classics of the fearsome-future genre, is the inability to imagine a language to match the changed face of common life. No newspeak. And nothing like the linguistic tour de force of A Clockwork Orange – the brutal melting-down of current English and Slavic words that in itself tells the story of the dread new breed. The writing of The Handmaid’s Tale is undistinguished in a double sense, ordinary if not glaringly so, but also indistinguishable from what one supposes would be Margaret Atwood’s normal way of expressing herself in the circumstances. This is a serious defect, unpardonable maybe for the genre: a future that has no language invented for it lacks a personality. That must be why, collectively, it is powerless to scare.” 

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  • The Goldfinch de Donna Tartt

Mais recentemente, The Goldfinch, vencedor de um Pulitzer e da autoria de Donna Tartt, dividiu os críticos quanto ao seu mérito e qualidade. Tendo eu lido o livro, posso afirmar que não foram só os críticos que ficaram com dúvidas quanto ao talento da Autora. Publicado no final de 2013, o livro teve direito a uma adaptação cinematográfica e a uma legião de fãs que o consideram, de forma absoluta, um favorito.

Outros, porém, não concordaram com o reconhecimento da obra como foi o caso da crítica Julie Myerson que, a este respeito, escreveu no The Guardian:

And I admit that by this point, close to the end of a monotonous 800-page novel, I was truly perplexed. Nothing wrong, I suppose, with a Harry Potter homage, but it’s hard for an adult reader to be gripped by a tale with no real subtext and peopled entirely by Goodies and Baddies. And, though our narrator comes over as (just about) plausibly male and hetero, his unrequited love for the redhead only exists because Tartt tells us it does. If what we have here is an unreliable narrator who desperately needs to burst out of the closet, then I stand corrected, but nothing in the prose evidences that. Instead it feels as if Tartt simply forgets from time to time what’s driving her juggernaut forwards. Hence both redhead and painting – the two supposed passions of our protagonist’s life – are dropped for hundreds of pages at a time, and I’m afraid we don’t miss them.

Ver mais aqui.

A par destes oito títulos, outros mais terão merecido críticas negativas e até insucesso comercial, aquando o seu lançamento. Isto levanta algumas questões quanto à classificação de um livro como verdadeira obra de arte. Obviamente, a resposta estará sempre associada à subjetividade de quem lê. Não obstante, já se perguntaram quantos livros já leram e criticaram negativamente? E se os nossos netos vierem a considerar esses mesmos títulos grandes obras da literatura mundial? A arte, enquanto produção humana, será sempre questionada, elogiada e criticada. Acho que nunca haverá uma resposta satisfatória à questão de saber o que torna um livro numa obra de arte.

Sinceramente, também não acho que a questão interesse muito. Se o livro que lemos nos diz algo, é irrelevante o que A ou B pensam. Sendo uma obra de arte ou não, o que importa é mensagem que nos transmite. O resto é conversa de fundo.

Boas Leituras!

(6) Comments

  1. Um bocadinho por teu arrasto vou começar a ler alguns clássicos que nunca tinha pensado ou considerado ler (o das irmãs é um deles). Quantos aos restantes …. Admirável Mundo Novo é um dos livros da minha vida e acredito que de muitos mais, Goldfinch igual… Sei que não és a maior fã mas para mim foi uma leitura incrível! O mesmo para The Great Gatsby e Lolita! Acho que não me estou a esquecer de mais nenhum.
    A crítica a livros, cinema, arte no geral, é feita por humanos, e muitas vezes há emoções por detrás de algumas críticas que lemos e que influenciam as mesmas… Tento sempre perceber quem são os críticos que se alinham com o que vejo e gosto, mas não deixe de ler um livro ou ver um filme por uma boa ou má crítica. Se há coisa que os livros nos ensinam é a ter pensamento crítico e devemos usá-lo sempre que possível 🙂
    Adorei, mais uma vez, esta publicação! Keep on, girl!

    1. Daniela Guimarães says:

      Fico tão feliz! Os clássicos são livros maravilhosos que nos acrescentam, sempre, algo de novo. Contam a sua história, o seu contexto e a sua realidade e isso é maravilhoso. Ainda não li Admirável Mundo Novo mas está na minha TBR assim como The Great Gatsby que dizem ser maravilhoso. Sim, não posso dizer que seja fã de Donna Tartt mas tenho cá o The Secret History. Os fãs da autora dizem que esta foi a sua grande obra. A ver vamos 🙂 Eu gosto de saber o que os críticos dizem antes de comprar um livro mas já aconteceu ler coisas muito más sobre determinada obra e ainda assim, comprar e ler. Isto porque existem outros fatores que me influenciam como é o caso da narrativa e, algumas vezes, da própria edição 😀
      Muito obrigada querida!

  2. Disse muitas vezes crítico ;D e esqueci-me da Margert Atwood! Quero muito ler…!

    1. Daniela Guimarães says:

      Tens mesmo de ler! Vais adorar e agora há uma graphic novel que é um espanto! Muito bonita!!!

  3. Olá Daniela!
    Encontrei o teu blog através do goodreads e decidi vir espreitar.
    Acho que no fundo um clássico é um livro que mais tarde ou mais cedo acaba por ter aceitação popular alargada. Quando só os críticos os reconhecem, acabam por cair no esquecimento. Também temos exemplos deste no cinema. Filmes que a critica ignora ou despreza e que se tornam filmes de culto, porque de alguma forma deixam uma marca indelével nas pessoas e passam a fazer parte da memória coletiva. Com os livros acho que é a mesma coisa. Da parte que me toca, valorizo mais a opinião popular do que a especializada. E é assim porque aquilo que eu procuro num livro (ou num filme, ou num album) vai mais ao encontro do que o cidadão comum procura – prazer na leitura , entretenimento, rir, chorar, deslumbrar-me, sonhar, etc.. A crítica especializada, prende-se muitas vezes com análises técnicas ou de simbologia/significado da obra; aspetos esses que não interessam às pessoas “normais”. Pessoalmente gosto muito de sites e redes sociais como goodreads ou imdb que agregam as classificações de pessoas comuns; uso-os bastante para “saber” o que vou ver a seguir, ou ler a seguir. Não me limito a isso contudo. Uso essas plataformas para me orientar e para me lembrar do que quero ler ou ver mas, no final de contas o que interessa é a nossa opinião. Gosto deste livro? Deste filme? Deste vinho? 🙂

    De momento lendo IT de Stephen King (génio) e FADO ALEXANDRINO de António Lobo Antunes (uma estreia).

    Boas leituras!

    1. Daniela Guimarães says:

      Olá Pedro! 🙂

      Antes demais, obrigada pela visita.
      Concordo muito com o que dizes. Eu acho ambas as críticas são muito necessárias e, muitas vezes, o livro ou o filme consegue conquistar as duas ms também valorizo mais a popular. O problema da crítica especializada tem que ver com a questão da análise técnica e também com a segmentação do género artístico. Pegando no exemplo literário, o que aconteceu foi que as críticas mais eruditas foram afastando a literatura do consumo comum tornando-a mais elitista e até aparentemente enfadonha. Por norma, os best-sellers não valeriam muito e as obras mais incompreendidas pelo cidadão comum é que seriam maravilhosas. A opinião popular acaba por corrigir esse problema ao democratizar mais a leitura.. o que é óptimo. Pessoalmente, vou procurando conciliar os dois mundos mas acabo por ter “sorte” na prática já que sou uma grande fã de clássicos. No que diz respeito à literatura contemporânea, a questão complica-se mais um pouco porque aí não tenho tantas referências.

      Por aqui estou a ler Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago e A Companhia Negra de Glen Cook.
      Obrigada mais uma vez e espero que voltes.

      Boas leituras!

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