O Nome da Rosa de Umberto Eco

Em 1327, a Igreja Católica atravessava uma das maiores crises da sua história com o surgimento do movimento Franciscano que apregoava a total pobreza evangélica. Entendendo que tal movimento colocava em causa os interesses da Igreja (rica em propriedades e bens de outra natureza), o Papa João XXII declarou que todos os que nele participavam deveriam ser declarados hereges e, por isso, severamente punidos. Os Franciscanos revidaram colhendo o apoio do Imperador Luis IV que, por sua vez, nomeou o antipapa Nicolau IV. Neste contexto, surge Guilherme de Baskerville, um frade Franciscano, ex-inquisidor, conhecido pelas suas altas faculdades intelectuais que é convidado a mediar um encontro entre representantes do papa e do Imperador numa abadia em Itália. Sucede que chegado lá, o frade acompanhado do noviço Adso, é confrontado com uma estranha morte ocorrida poucos dias antes dos encontro.

Esta poderia ser a premissa de uma das aventuras de Sherlock Holmes mas o Nome da Rosa não pode ser comparado a mais nenhum livro. Não se trata de um policial ou mesmo de um thriller nem de um mero livro de ficção sendo que, igualmente, não pode ser inserido no género não ficção. Trata-se, sim, de um romance histórico e filosófico que complementa ficção com não ficção, de forma magistral. As primeiras páginas do livro desafiam, desde logo, o leitor a saber se os factos que lhe serão, de seguida, narrados tiveram realmente lugar. Nas suas palavras, o Autor vem apresentar um relato escrito por um frade, algures no século XIV, sobre a sua estadia numa pequena abadia em Itália.

“No dia 16 de agosto de 1968 foi-me parar às mãos um livro que se deve à pena de um certo abade Vallet, Le Manuscript de Dom Adson de Melk, traduit en français d’après l’édition de Dom J. Mabillon (Aux Presses de l’Ablaye de la Source, Paris, 1842). O livro, acompanhado de indicações históricas na verdade bastante pobres, afirmava reproduzir fielmente um manuscrito do século XIV, por sua vez encontrado no mosteiro de Melk pelo grande erudito seiscentista, a quem tanto se deve pela história da ordem beneditina.” 

A história, de seguida, apresentada é extremamente detalhada, lenta e complexa. Na sua base, está um conjunto de crimes pérfidos relacionados com livro que poderá alterar alguns dos mais profundos dogmas da doutrina cristã. O Nome da Rosa é discussão sobre a democratização da informação, o riso de Cristo, a pobreza como ferramenta de acesso ao divino, o papel da inquisição e o dever do homem temente a Deus.

Durante quase 500 páginas, o romance olha, quase obsessivamente, para o detalhe e assertividade dos factos históricos narrados. Guilherme de Baskerville é um fiel amigo de Guilherme de Ockham seguindo a sua teoria nominalista e partindo da intuição para o conhecimento. Logo no primeiro capítulo, Adso é confrontado com os poderes intelectuais do seu mestre. Na chegada ao mosteiro, Guilherme e Adso encontram um conjunto de frades aflitos. Sem mais, Guilherme deduz que os mesmos se encontram à procura do melhor cavalo do Abade, descrevendo o mesmo, que, por sua vez, fugiu para o lado oposto àquele em que eles se encontravam. Quando questionou sobre como sabia Guilherme tal informação, Adso recebeu a primeira de muitas grandes lições:

“- Meu bom Adso – disse o mestre. – Em toda a viagem te tenho ensinado a reconhecer os traços com que o mundo nos fala como um grande livro. Alano das Ilhas dizia que omnis mundi creatura quasi liber et pictura nobis est in speculum e pensava na inexausta reserva de símbolos com que Deus, através das suas criaturas, nos fala da vida eterna. Mas o universo é ainda mais loquaz do que pensava Alano e não só fala das coisas últimas (caso em que o faz sempre de modo obscuro) mas também das próximas, e nisto é muito claro. Quase me envergonho de repetir-te aquilo que deverias saber. No trívio, sobre a neve ainda fresca, desenhavam-se com muita clareza as pegadas dos cascos de um cavalo que apontavam para o carreiro à nossa esquerda. A bela e igual distancia um do outro, aqueles sinais diziam que o casco era pequeno e redondo e o galope de grande regularidade… de modo que daí deduzi a natureza do cavalo e o fato de ele não correr desordenadamente como faz um animal irritado. Ali, onde os pinheiros formavam como que um teto natural, alguns ramos tinham sido quebrados de fresco justamente à altura de cinco pés. Um dos silvados de amoras, por onde o animal deve ter andado para meter pelo caminho à sua direita, enquanto altivamente sacudia a sua bela cauda, conservava ainda entre os espinhos longas crinas muito negras… Não me digas enfim que não sabes que aquele caminho conduz ao depósito do estrume, porque subindo pela curva inferior vimos a baba dos detritos descer a pique aos pés do torreão meridional, sujando a neve; e, tal como o trívio estava disposto, o caminho não podia senão conduzir naquela direção.”

As faculdades dedutivas de Guilherme são, mais tarde, colocadas à prova na descoberta do autor dos crimes que assolam a abadia. E à medida que a investigação vai prosseguindo, também a intriga política se vai desenvolvendo. Ficamos a saber que a abadia esconde muitos segredos sendo que o principal é o conteúdo da sua biblioteca, inacessível a todos os frades e servos da abadia. A motivação para tal facto é dada a Guilherme de Baskerville pelo próprio Abade num intenso discurso sobre os tempos marcados pelo demónio que se vivem e a necessidade de filtrar informação porque nem todos estão preparados para o conhecimento.

“Mas um elenco de títulos frequentemente diz muito pouco, só o bibliotecário sabe, pela colocação do volume, pelo grau da sua inacessibilidade, que tipo de segredos, de verdades ou de mentiras o volume encerra. Só ele decide como, quando e se o fornece ao monge que faz a sua requisição, por vezes depois de me ter consultado. Porque nem todas as verdades são para todos os ouvidos, nem todas as mentiras podem ser reconhecidas como tais por um espírito piedoso, e os monges, enfim, estão no scriptorium para levar a cabo uma obra precisa, para a qual devem ler certos volumes e não outros, e não para seguir qualquer insensata curiosidade que os colha, quer por debilidade da mente, quer por soberba, quer por sugestão diabólica.”

É neste contexto de ignorância, que Adso e Guilherme têm de trabalhar para descobrir a identidade do assassino e tudo deve ser feito antes do encontro entre representantes do Papa e do Imperador. Eco explora questões éticas, com grande domínio, e oferece ao leitor métricas de pensamento filosófico muito interessantes. Existe, nesse sentido, uma clara preocupação do Autor com o rigor e realismo da história. O resultado acaba por ser uma narrativa histórica poderosíssima que questiona o passado e o futuro. A certa altura, a inquisição atua e o leitor depara-se com um julgamento arbitrário sendo que as emoções de inquisidor e inocente se misturam numa parafernália de devoção/liberdade/resignação.

Umberto Eco, que faleceu em 2016, dedicou grande parte da sua vida ao conhecimento e à academia. O Nome da Rosa foi, na verdade, o seu primeiro romance sendo que existe muito do Autor em Guilherme de Baskerville. Ambos foram pensadores excepcionais que procuraram deduzir a verdade a partir dos símbolos e da observação. Numa nota absolutamente pessoal, Eco escreveu uma verdadeira obra prima que, posso adiantar, mudou-me enquanto leitora. Para além de me ter desafiado de uma forma incrível, o romance recordou-me a importância de nunca negar o conhecimento a ninguém… nem sequer a quem não está preparado para o receber porque a liberdade é o nosso direito mais precioso.

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