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Sabrina de Nick Drnaso

  • Editora: Porto Editora
  • Páginas: 203
  • Ano da Primeira Publicação: 2018
  • Género: Novela Gráfica

Já vos aconteceu ler um livro absolutamente aclamado pela crítica para descobrir, no final, que o livro não vos disse tanto como esperavam? A mim já e foi, precisamente, com Sabrina de Nick Drnaso. Eu acho que tem tudo que ver com expectativas vs. género vs. oportunidade.

Antes de me explicar melhor, importa contextualizar que Sabrina foi a quarta escolha do Clube Literário. Trata-se da primeira novela gráfica finalista do Booker Prize e uma breve pesquisa no google mostrará as mais apaixonadas críticas sobre o impacto desta história na século da Internet.

A novela inicia-se com uma jovem mulher que se encontra a olhar pelo gato dos pais. A certa altura, essa jovem recebe a visita da sua irmã e as duas têm uma conversa onde pré-programam uma viagem de bicicleta ao lago Michigan na Primavera seguinte. No final do serão, as irmãs despedem-se sem saber que aquela será a última vez que se vão ver. Nesta altura, ainda nada nos é dito mas podemos adivinhar que a jovem mulher que cuida do gato dos pais é a personagem título Sabrina. A partir deste encontro, somos transportados para uma cidade no Colorado onde Calvin, um soldado da Força Aérea, vai buscar o seu amigo de infância Teddy ao aeroporto. Teddy é o namorado de Sabrina que, momentos depois descobrimos, desapareceu, sem deixar rasto, há mais de um mês. Um vídeo divulgado na Internet parece revelar o triste destino de Sabrina mas nenhuma prova convence um conjunto indefinido de cibernautas que começam a assediar Teddy e Calvin.

Pela explicação acima, poder-se-ia pensar que se está perante um policial. Não podíamos estar mais longe da verdade. Sabrina é, na verdade, uma análise sobre a natureza da confiança e da verdade. O livro parte de um evento traumático para uma crescente paranóia sobre a identidade e o desaparecimento/homicídio de Sabrina abordando temas como alienação social, paranóia, solidão, desconexão da realidade e falta de empatia.

Sabrina pega nas ferramentas digitais atuais para justificar a perda de sensatez e coerência, o surgimento de falsos profetas e a incapacidade humana de filtrar a informação. Drnaso tem boas intenções utilizando linhas de desenho muito particulares para transmitir a sua mensagem (todas as personagens são bastante parecidas levando o leitor a questionar-se sobre o que é ou não conspiração). Todavia, a narrativa não me seduziu porque o ponto de partida pareceu-me rebuscado. Desde logo, o Autor optou por utilizar um homicídio pérfido como evento catalisador da história. Ora, um crime dessa natureza não integra, felizmente, as circunstâncias ordinárias da vida. Quantos de nós estarão, algum dia, na pele do irmão, namorada, filha de uma vítima de um crime dessa natureza? Trata-se de um evento demasiado extraordinário para dar discussão a temas tão atuais e ordinários como os acima referidos. Não era necessário ir tão longe se o objetivo era a exploração de emoções atuais.

Por outro lado, não me identifiquei com a narrativa fria do Autor que escreve como se estivesse a analisar um estudo antropológico. Drnaso forma as expressões das suas personagens com o menor número de linhas possível sendo que este é um daqueles livros que mais fala no silêncio. Ao longo de toda a novela, somos confrontados com grandes dimensões das páginas dedicadas ao silêncio e aos detalhes do quotidiano. Não se trata aqui de sensacionalizar as emoções das personagens mas, ao invés, contar as mesmas de forma analítica.

Voltando ao tema da introdução, ao ler a sinopse de Sabrina, criei uma expectativa diferente na minha cabeça que incluía uma maior presença emocional do Autor. Acabei por ser confrontada com uma forma de contar histórias mais fria onde a subtileza diz muito mais do que as palavras. Isso num género literário diferente poderia me arrebatar, mas numa novela gráfica fez-me sentir deslocada. Talvez eu ainda não estivesse no momento certo para esta leitura mas a verdade é que tive dificuldade em empatizar com o que me era transmitido. Do ponto de vista intelectual, compreendi e aplaudi a sua mensagem mas do ponto de vista sentimental (e para mim a leitura é sentimento) não me compadeci muito.

Não obstante, a mensagem de Sabrina é muito pertinente porque desconstrói verdadeiras questões sociais. Acho por isso que deve ser objeto de leitura e reflexão. 

Classificação: 3/5

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