Os Vampiros de Filipe Melo e Juan Cavia

  • Editora: Tinta da China
  • Páginas: 240
  • Ano da Primeira Publicação: 2016 
  • Género: Novela Gráfica

Filipe Melo é português e Juan Cavia é argentino. Juntos assinaram já produções gráficas conhecidas como é o caso d´As Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy. Mentiria se dissesse que já conhecia o trabalho destes incríveis criativos. Do Filipe Melo apenas sabia que é uma das vozes do brilhante podcast Uma nêspera no Cu. Já no que diz respeito ao Juan Cavia, nem sabia que a pessoa existia.

Depois de ler Os Vampiros, posso dizer que este dois seres humanos são a minha mais recente obsessão literária. Quero só ler e ver tudo o que já fizeram.

A leitura desta novela gráfica foi tão impactante que me debato com as palavras para a sua caracterização. Esta história é nacional e não apenas porque o seu argumentista é português. É nacional porque toca na dor do nosso país que, no silêncio, sofre os efeitos de uma guerra demasiado longa.

A narrativa tem lugar na selva Guineense em dezembro de 1972. Um grupo de soldados portugueses atravessa o país, numa missão secreta, rumo ao Senegal. À medida que vão sendo consumidos pela paranóia e pelo cansaço, estes homens vão lutando com a morfologia do terreno e com algo simultaneamente sobrenatural e íntimo. ⠀⠀

Com clara inspiração na letra da conhecida música de Zeca Afonso, Os Vampiros revisita um dos eventos históricos mais marcantes do século XX – a guerra colonial. Utilizando fenómenos aparentemente sobrenaturais, esta novela explora a angústia, dor, culpa e impotência de um conjunto de homens que, sem pedir, foram lançados num terreno a mais de dez mil quilómetros de distância da sua casa com o objetivo claro de matar ascendendo à categoria de demónios que buscam a redenção.

Trata-se de uma novela belíssima, do ponto de vista intelectual e gráfico. A arte de Juan Cavia responde, na perfeição, à complexidade do argumento de Filipe Melo sendo que cada capítulo se inicia com uma frase que tudo diz sobre a nossa identidade.

“É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome tanto menos se farta”.  

Padre António Vieira, Sermões in Os Vampiros

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