O meu primeiro livro de Saramago: Ensaio sobre a Cegueira

  • Editora: Leya
  • Páginas: 299
  • Ano da Primeira Publicação: 1995
  • Género: Distopia/Romance Contemporâneo

Enquanto leitora ávida, muitas vezes em conversas com amigos, recebo aquela célebre pergunta: já leste Saramago? Antigamente respondia que sim porque, tal como muitos que aqui me acompanham, li O Memorial do Convento no ensino secundário. Nos últimos anos, uma maior reflexão de minha parte levou-me a alterar a minha resposta para não. Isto porque a leitura que fiz no secundário foi superficial, mecânica e desprovida de qualquer dedicação. Honestamente, a Daniela de 17 anos queria apenas terminar o secundário com a melhor média possível para entrar em Direito e, por isso, dedicava-se a aprender o que era necessário para “sacar” boas notas nos testes. Sei que o Memorial do Convento tem por personagens principais Blimunda e Baltazar e que a história gira à volta da construção do Convento de Mafra. De resto, nada mais me lembro. Achei, por isso, injusto dizer que havia lido Saramago e que não gostara. Comecei a responder que não conhecia a obra de Saramago o que é igualmente verdade. Ainda hoje não conheço mas já posso dizer que a escrita do Autor marcou-me, de forma permanente, com Ensaio sobre a Cegueira.

Ora, Saramago dispensa grandes apresentações. Prémio Nobel da Literatura, génio, contador de histórias exímio, ateu convicto, homem que escreve com pouca pontuação e muito mais. Há anos que ouvia que tinha de ler Saramago e há anos que evitava, por puro medo, ler Saramago. Tinha razão. Em Ensaio sobre a Cegueira, a escrita de Saramago é crua, lúcida e incisiva. Toca onde não queremos e faz-nos sentir conscientes da enormidade, complexidade e angústia do que é ser humano.

Numa cidade, uma epidemia surge deixando os seus habitantes cegos. O Governo, desconhecendo a sua origem e temendo o contágio, enclausura num manicómio abandonado todos os que padecem da estranha maleita. Completamente isolados do mundo, os cegos começam a criar os seus próprios mecanismos de sobrevivência. Fingindo-se de cega, uma mulher vê tudo. Aos poucos, a humanidade vai-se perdendo. Primeiro, vai-se o nome “Um, fez uma pausa, parecia queria dizer o nome, mas o que disse foi, Sou polícia, e a mulher do médico pensou, Não disse como se chama, também saberá que aqui não tem importância”, depois a vergonha “o fedor asfixiava. Tinha a impressão de haver pisado uma pasta mole, os excrementos de alguém que não acertara com o buraco da retrete ou que resolvera aliviar-se sem querer saber mais de respeitos”, a vida “Dominando, só Deus sabe como e porquê, um legítimo medo, avançaram até ao limiar da porta e despejaram os carregadores. Os cegos começaram a cair uns sobre os outros, caindo recebiam no corpo balas que já eram puro desperdício de munição” e a humanidade “Farás aquilo que melhor te parecer, mas não te esqueças daquilo que nós somos aqui, cegos, simplesmente, cegos, cegos sem retóricas nem comiserações, o mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é reino duro, cruel e implacável dos cegos.”

Ensaio sobre a Cegueira é mais do que uma parábola, é uma tese sobre a natureza humana. Pegando num evento anormal, Saramago confronta-nos com a brutalidade do desconhecido escrevendo com enorme sabedoria. Afinal, o que nos torna humanos? A atribuição de uma identidade? As convenções sociais? A racionalidade? A intimidade? Um livro negro que oferece, simultaneamente, o pior e o melhor desta nossa volátil condição. Pelo meio, oferece uma das personagens femininas mais fortes que tive o prazer de ler.

Classificação: 5/5

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(2) Comments

  1. A minha experiência com Saramago foi muito, muito semelhante. E ler o “ensaio sobre a cegueira” produziu em mim sensações também igualmente fortes. Há os que contam histórias; depois há os que, através das histórias que contam, nos desvendam a nós.

    1. Daniela Guimarães says:

      Exprimiste nas palavras certas o que senti ao ler Saramago. É isso mesmo. Ensaio Sobre a Cegueira fala tanto ao leitor que é impossível alguém lhe ficar indiferente. Toca onde não queremos sentir e isso custa muito. A verdade doí mas é refrescante levar com a honestidade de Saramago.

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