E quando descobrimos que os nossos admirados são pessoas execráveis? A polémica de Enid Blyton e outros que tal…

Enid Blyton

No início deste mês, foi tornado público que a casa da moeda britânica, algures em 2016, recusou fazer uma moeda comemorativa dos 50 anos da morte da escritora Enid Blyton.

Para quem não conhece a escritora britânica, a Enid foi autora das aventuras de “Os Cinco”, de “Os Sete” e pelo amigo de infância de várias gerações “Noddy” sendo inegável o seu impacto na vida de inúmeros leitores espalhados pelo globo, incluindo Portugal. Pessoalmente, nunca li os seus livros mas cresci a ver a adaptação televisiva do Noddy sendo que também eu me considero uma das suas influenciadas. Aparentemente, nas palavras de vários estudiosos da sua obra e vida, Mrs. Blyton não era uma pessoa boa. Em 2013, a autora portuguesa Alice Vieira lançou uma biografia da escritora, “O Mundo de Enid Blyton” tendo, para o efeito, falado com a filha mais nova de Blyton, Imogen Smallwood, com fãs e com jornalistas que estudaram a vida da britânica, que sempre esteve um pouco envolta em mistério.

Nas suas palavras, Enid Blyton “só tinha uma obsessão na vida, que era escrever. Se as filhas faziam um bocadinho de barulho quando ela estava a trabalhar, levavam pancada, as empregadas sabiam que ela não queria crianças ao pé dela.” O que acaba por ser irónico porque ela escrevia para crianças. Esta nova polémica leva-me a questionar, mais uma vez, até que ponto deve a personalidade de um artista interferir nos resultados do seu trabalho? A questão é mais relevante do que parece porque é transversal ao mundo artístico. Por causa da sua visibilidade, é claro que pessoas como Enid Blyton, Michael Jackson ou Marion Zimmer Bradley (acusados de abuso sexual de menores) são sujeitas a um maior escrutínio daquilo que foi a sua vida e, acima de tudo, os seus pecados. Mas também nós, no nosso dia a dia, convivemos com as mais diversas pessoas. E a questão é saber se devemos julgar o trabalho de quem quer que seja pela sua personalidade ou atuação na vida pessoal.

Ora, vivemos numa era em que tudo é julgado e sujeito ao crivo do politicamente correto. Lançamos pedras sem conhecer as reais histórias de cada um. Com isto, não estou a dizer que Enid não fosse racista, estou sim a perguntar se existem elementos provatórios suficientes dessa sua deficiência de caráter. A verdade é que a mulher morreu há já 50 anos sendo que a época histórica em que ela cresceu é diferente da que vivemos hoje. Por outro lado, sendo verdade, tal interfere assim tanto com aquilo que ela criou e os efeitos que veio a ter no mundo? Não me interpretem mal! Condeno o racismo e qualquer outra forma de preconceito com todas as células do meu ser mas acredito que o ser humano, independentemente da sua cor, é demasiado complexo para ser reduzido a uma única dimensão.

Um dos meus atores favoritos é o Kevin Spacey. Considero-o, de forma clara e inequívoca, um dos atores mais brilhantes que pisou este planeta. A sua imersão nos papéis que assumia era tão completa que era impossível ele não roubar a cena. No meio do movimento “me too”, Kevin foi acusado de abuso sexual e assim a sua carreira foi completamente arruinada. Para isso, ele nem sequer teve de de ser formalmente acusado de alguma coisa. Bastaram umas declarações a um jornal. Eu não sei se o Kevin abusou sexual ou moralmente de quem quer que seja. O que sei é que ele não teve hipótese alguma de se defender, mesmo sendo vivo. O que dizer dos mortos como é o caso de Enid Blyton, Marion Zimmer Bradley ou até Michael Jackson.

Eu sou da opinião de que artista e obra são realidades distintas. Picasso agredia mulheres e não é por isso que Guernica deixa de ser o maior exemplo do cubismo na pintura. Um retrato vívido contra a violência e a guerra. Não me interessa quem foi Picasso da mesma forma que não me interessa quem foi Enid, Marion ou Michael Jackson porque para mim eles são meros veículos de uma arte maior que tornou, invariavelmente, o mundo um lugar menos mau. A partir do momento que Enid Blyton publicou o seu primeiro livro, este deixou de ser dela e passou a servir os seus leitores. Se ela era má, racista e homofónica, isso apenas serve para eu não a idolatrar enquanto pessoa. Não deve apagar a sua obra que tão bem fez a milhares e milhares de crianças pelo mundo todo! O mesmo se pode dizer de qualquer outro artista. Sou, por isso, da opinião de Alice Vieira quando diz que “os escritores deixam livros, o mau feitio vai com eles”.

Guernica de Pablo Picasso

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