A Hora da Estrela de Clarice Lispector

  • Editora: Relógio d’Água
  • Páginas: 99
  • Ano da Primeira Publicação: 1976 
  • Género: Ficção

“Clarice Lispector era uma estrangeira”. Esta frase reproduzida na contracapa da edição da Relógio de Água d’A Hora da Estrela foi, para mim, determinante na decisão de ler este livro. Quantos de nós não são estrangeiros? Pássaros vindos de longe e desadequados no mundo em que vivem? Também a figura central deste livro é uma estrangeira. Reparem que ela se chama Macabéa. Que nome estranho. E isto dito por uma Daniela Susana. 

“A Hora da Estrela” é dos livros mais bonitos que li. A razão tem toda que ver com a linguagem de Clarice, que nos leva numa jornada tão pura. Em pouco mais de 90 páginas, o narrador conta-nos a história de uma menina tão feia e inocente que sem saber o que era a felicidade, a encontrava nas miudezas. Macabéa era, aos olhos de quem a via, uma pobre coitada: feia, extremamente magra, pouco culta e pobre ao ponto de já nem sentir fome.

Nas palavras do Narrador, “… a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém.”

(…)

“Ela nascera com maus antecedentes e agora parecia uma filha de um não-sei-o-quê com ar de se desculpar por ocupar espaço. (…) Ela toda era um pouco encardida porque raramente se lavava.”

A sua história é triste e contada pelo narrador de forma fria porque não há lugar a piedades por esta nordestina. Talvez por isso, ela conquista o nosso coração. 

“Bem, é verdade que também eu não tenho piedade do meu personagem principal, a nordestina: é um relato que desejo frio. Mas tenho o direito de ser dolorosamente frio, e não vós. Por tudo isto é que não vos dou a voz.”

Publicado em 1976, pouco depois da morte de Clarice Lispector, “A Hora da Estrela” é o grito de um narrador que se sente na obrigação de contar a história de uma menina tão pobre que vive à toa. E este narrador que acaba por ser o verdadeiro protagonista desta história. Porque enquanto nos fala de Macabéa, fala-nos de si mesmo e da forma como olha para esta miséria anónima. Porque as palavras são dele e não da sua personagem que por mais que se esforçasse nunca as conseguiria dizer. 

“Mas desconfio que toda essa conversa é feita apenas para adiar a pobreza da história, pois estou com medo. Antes de ter surgido minha vida essa dactilógrafa, eu era um homem até mesmo um pouco contente, apesar do mau êxito na minha literatura. As coisas estavam de algum modo tão boas que podiam se tornar muito ruins porque o que amadurece plenamente pode apodrecer.”

Classificação: 5/5

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