O que eu andei a ler em outubro

Olá Pessoal, 

Outubro foi um mês um pouco desagradável porque estive doente e, sem saúde, ninguém vai a lado nenhum – sabedoria das pessoas mais velhas que eu valorizo muito. Ainda assim, fiz umas leituras muito interessantes.

 
Iniciei o mês com Alan Moore – que escreveu o argumento – e David Lloyd – que desenhou – na incrível novela gráfica V de Vingança. V for Vendetta, nome original, é uma série de banda desenhada distópica, criada nos anos 80, que imagina o Reino Unido sobre um regime totalitário. Neste contexto de total falta de liberdade, surge um homem que se autodenomina V e que utiliza uma máscara do Guy Fawkes – soldado inglês que conspirou contra o Rei Jaime I do Reino Unido no Gunpowder Plot, atentando contra a sua vida. V pretende a instauração de um regime que devolva o poder ao povo. Ele tem aqui algumas características anárquicas, utilizando a destruição de símbolos como o Parlamento Britânico ou o Big Ben como forma de acordar o povo britânico. Pelo meio, ele conhece a Evey que é uma jovem perdida e estabelecem uma amizade pouco ortodoxa.

Eu já conhecia a história porque vi o filme de 2005 com o Hugo Weaving e a Natalie Portman que surge pelas mãos dos mesmos realizadores do Matrix. A história tem algumas diferenças mas, no geral, achei que a adaptação estava bem feita. Foi uma leitura fantástica que potenciou ainda mais as minhas reflexões políticas.

Uma curiosidade: a máscara do Guy Fawkes veio a ser adoptada pelo grupo Anonymous e está, hoje, muito associada a movimentos sociais de revolta contra o poder governativo. Fiquei com muita vontade de ver Watchmen. 


Simultaneamente, li The Secret History da Donna Tartt e começo já por dizer que esta talvez tenha sido das melhores leituras do ano. É um livro intenso que vai buscar mitologia clássica e mistura-a com um homicídio numa universidade de elite. Todas as personagens deste livro são atraentes – do ponto de vista intelectual – e a Donna conseguiu construir bem esse apelo ou carisma. Aqui temos um miúdo – o nosso narrador Richard – que viveu uma vida um pouco miserável junto de dois pais que não podiam estar menos preocupados com ele que, de repente, recebe uma bolsa para estudar numa universidade de elite no Vermont onde consegue ingressar na turma de grego clássico, que são os gajos fixes da escola, para descobrir que o povo lá leva a disciplina muito a sério.

Tive uma enorme surpresa com este livro porque detestei O Pintassilgo e não esperava gostar nada deste que – em bom rigor – comprei por causa do bookstagram e da capa. 🙂

Finalizada a leitura de The Secret History, devorei em 2 dias o livro Estação Carandiru do Drauzio Varella. A Penitência de Carandiru em São Paulo foi, em tempos, a maior prisão da América do Sul albergando cerca de 9 000 presos em 9 pavilhões sendo que a sua capacidade era para pouco mais de 4000. Aquilo era um verdadeiro depósito de pessoas misturando-se vários tipos de criminalidade. A prisão que, entretanto já não existe, ficou mundialmente conhecida quando em 1992 – em sequência de uma revolta interna – a polícia militar invadiu um dos pavilhões – o 9 – e matou 111 presos – número oficial – em 20 minutos naquilo que ficou conhecido como o Massacre do Carandiru. O autor deste livro é um médico brasileiro que anos antes deste massacre voluntariou-se para trabalhar na prisão num projeto de prevenção e tratamento da Sida. Ele teve a oportunidade de conhecer a prisão e os prisioneiros de forma muito próxima e é essa experiência que ele conta aqui. É um livro pesado com relatos difíceis sobre um conjunto de pessoas que viviam em condições deploráveis. Nota-se que ele procura humanizar o preso e mostrar que muitos deles são vítimas do sistema.

É um livro estimulante sobre o sistema penal brasileiro e as suas falhas. Acabou por ser uma leitura muito didáctica.

Uma curiosidade que eu achei do outro mundo foi que, no Brasil, é prática os presos arrendar as suas celas a outros presos. Como, normalmente, existem mais presos do que celas – os que não conseguem cela – ficam numa área comum a dormir no chão ou em cima de um cobertor. Os presos que já estão no sistema há muito tempo aproveitam-se disso e cobram um X para que o recém-chegado possa ter direito a uma cama. E acontece ainda do senhorio presidiário ser libertado ceder a sua posição na cela a um colega que – caso ele volte – tem de lhe devolver a cama.


Depois li Psicopata Americano do Bret Easton Ellis que foi a minha pior leitura do mês. Eu sei que há muitos fãs deste livro, mas para mim não resultou. O Bret é aquele fulano que é capaz de chegar a uma sala cheia de gente e fazer a saudação nazi apenas pelo prazer de ver as reações das pessoas. É e gosta de ser polémico. Este livro é a saudação dele. Cheio de violência potenciada pela exacerbação do ego.

O protagonista Patrick Bateman é um psicopata cuja mente se reduz a morte/moda/sexo. Tudo aqui é descrito ao pormenor o que deixa o leitor muito desconfortável. É uma sátira que leva a cultura americana ao limite – há partes com uma vibe muito Laranja Mecânica. Nada aqui, é aceitável. Foi-me impossível sentir qualquer tipo de empatia com o livro ou com as suas personagens e o mesmo fez-me pensar muito sobre moralidade do autor vs. moralidade do leitor. Reconheço o seu valor mas nunca mais o quero ver à frente.

Terminei o mês com a deliciosa novela gráfica Portuguesa As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy do Juan Cavia e do Filipe Melo. Passada em Lisboa, esta novela conta a história do pobre pizzaboy que numa noite vê a mota, em que entrega pizzas, roubada por um ser estranho. Acreditando tratar-se de um ser sobrenatural, o rapaz procura o único detetive sobrenatural de Lisboa que é o Dog Mendonça que, juntamente com uma aparente menina de 12 anos (que fuma), procuram perceber o que era o ser que roubou a mota do Pizzaboy. Isto junta gárgulas, nazis, oráculos, zombies, gárgulas, lobisomens e muito humor.

O desenho é lindo, a história viciante e, segundo o que li, colocou o nome de Portugal nos grandes festivais de novelas gráficas do Mundo.

Em outubro, iniciei Soldados de Salamina de Javier Cercas mas não terminei. Continuo durante o mês de Novembro.

Também descobri as séries da RTP Sul e Luz Vermelha. São ambas muito boas – ao nível das que nos chegam do estrangeiro. A primeira está inclusive em processo de venda internacional e é um policial noir passado nos anos de crise financeira que – segundo quem vive em Lisboa – mostra a cidade com um olhar muito realista. A segunda é baseada no caso das Mães de Bragança que foram umas senhoras que, no início dos anos 2000 revoltaram-se com o surgimento de várias casas de alterne em Bragança e denunciaram o caso à imprensa tendo sido, inclusive, capa da Times.  Vale a pena ver! 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *