Os Maias de Eça de Queiróz

Um retrato da sociedade portuguesa que merece o lugar que conquistou na história do nosso país.

Escrever sobre Os Maias é um enorme desafio porque não há nada de novo a acrescentar. Figurante da plano nacional de leitura, este clássico da literatura Portuguesa da autoria de Eça de Queiroz dispensa apresentações, tendo sido analisado ao detalhe por pessoas bem mais eruditas e preparadas do que eu. Assim, impõe-se o aviso prévio de que esta é uma percepção pessoal e que, provavelmente, no final da sua leitura ficarão a saber exatamente o mesmo que sabiam antes.

Sobre os Maias:

Na pequenez da Baixa e do Aterro, onde todos se acotovelam, os dois fatalmente se cruzam: e com o seu brilho pessoal, muito fatalmente se atraem! Há nada mais natural? Se ela fosse feia e trouxesse aos ombros uma confeção barata da Loja da América, se ele fosse um mocinho encolhido de chapéu-coco, nunca se notariam e seguiriam diversamente nos seus destinos diversos. Assim, o conhecerem-se era certo, o amarem-se era provável…

Nem só das histórias de amor dos Maias vive o romance mais completo e brilhante de Eça de Queirós. É também uma verdadeira crónica de costumes, retratando, com rigor fotográfico e muito humor, a sociedade lisboeta da segunda metade do século XIX. “

Antes de continuar, permitam-me dizer que esta não foi uma releitura, mas sim uma leitura. Isto porque no alto dos meus 16/17 anos, eu não percebi minimamente a grandiosidade desta obra (ou sequer do seu autor).

Em primeiro lugar, a minha percepção sobre Os Maias não podia estar mais errada. Tal como milhares de jovens deste país, o que eu retive, na época do livro, é que o mesmo dizia respeito a uma família muito azarenta onde dois irmãos de apaixonavam e cometiam incesto. Não pode esta ideia redutora ser mais ofensiva. Isto porque Os Maias – Cenas da Vida Romântica não é sobre amor ou, muito menos, incesto. Igualmente, não classificaria este romance como uma saga familiar. Hoje, terminada a leitura, digo, sem receio, que a obra de Eça de Queiróz sobre a família Maia é sobre a sociedade portuguesa. É esta a verdadeira protagonista. A tragédia e o romance surgem para servir as hipocrisias, falhas de carácter e outras miudezas da sociedade Portuguesa – in casu a Lisboeta. E é incrível como Eça toca nas nossas maiores idiossincrasias. De facto, só um escritor de grande brilhantismo o conseguiria fazer.

N’Os Maias, Eça é verdadeiramente corrosivo destruindo, sem piedade, os quadros da vida social portuguesa. Utilizando a sua já conhecida técnica romanesca, o Autor desmistifica uma sociedade corrupta, ultrapassada, de “aristocracia hereditária com base rural”. As suas personagens – talvez exceptuando Afonso da Maia – são decadentes, fúteis e inúteis. Vivem de um passado que não mais lhes serve e olham para o progresso como tema de boas tertúlias. Como escreveu Eça a Ramalho Ortigão, Os Maias é mais do que uma simples sátira, é uma verdadeira condenação de toda a “sociedade constitucional”.

O humor e a vividez das descrições são uma das maiores forças desta obra. Eça não se coíbe ironizar e gozar da forma sagaz como só ele sabe. E que aventura prazerosa é ler Os Maias e viver as suas personagens icónicas que ultrapassam os já conhecidos Carlos e Maria Eduarda. A verdade é que o vilão de Eça é sempre, para mim, o grande toque das suas obras (a amarga Juliana d’O Primo Basílio – que mulher!) e aqui não há exceção. Dâmaso é uma das grandes personagens da nossa literatura não tendo, na maioria das vezes, o reconhecimento que merece. Para sempre ficará comigo a afamada expressão “é chique a valer”.

Chique eu não diria mas “fantástico a valer” parece-me um bom adjetivo para Os Maias.

  • Editora: Círculo de leitores
  • Páginas: 470
  • Ano da Primeira Publicação: 1888
  • Género: Romance Realista

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