Celestial Bodies de Jokha Alharthi

Uma viagem inesquecível a Omã pela voz de três gerações distintas.

Uma das características mais fascinantes dos livros é, para mim, a facilidade com que transportam o leitor para geografias e culturas que lhe são desconhecidas. O Sultanato de Omã é um pequeno país localizado na foz do Golfo Pérsico que, apesar das reservas modestas de petróleo, tem-se destacado como um importante destino turístico e exportador de peixe. O país ocupa o 74.º lugar no índice dos mais pacíficos do mundo e, não obstante o seu regime político – monarquia absoluta -, enfrentou, nas últimas décadas, um enorme processo de modernização. Ora, Celestial Bodies foca-se, precisamente, nas mudanças sociais ocorridas em Omã no último século, adotando, para o efeito, distintas vozes, no seu próprio contexto temporal.

Sobre o livro:

Na pequena vila do Sultanato de Omã al-Awafi, vivem três irmãs. Maya que casa com um noivo arranjado pelos pais, depois de um desgosto amoroso. Asma que casa em obediência a um sentido de dever e Khawla que rejeita todas as propostas de casamento enquanto espera pelo seu primo prometido que, anos antes, emigrou para o Canadá. Elegantemente construído, Celestial Bodies é a estória da história e do povo de um Omã modelo contada a partir das perdas e paixões de uma família. (Tradução minha efectuada a partir da sinopse da edição inglesa).

Sim, se gostou de Cem Anos de Solidão de Gabriel Garcia Márquez, vai adorar Celestial Bodies. À semelhança do grande clássico moderno colombiano, a obra de Jokha Alharthi também conta a história de um país pelos olhos de várias gerações da mesma família. O primeiro capítulo fala-nos de Maya que se resigna a um casamento orquestrado pelos pais com um jovem que ela não ama. O início da vida de casada de Maya acaba por contrastar com o da sua filha contado, no capítulo seguinte, pela voz do tal marido que Maya nunca quis. London, ao contrário da mãe, pode decidir com quem casar e, face a uma situação de violência, conseguiu, inclusive, o divórcio. Abdallah, o seu pai, fala do amor não correspondido pela mulher e dos eventos que marcaram a sua infância – altura em que a escravatura era ainda uma realidade em Omã – apenas foi abolida em 1970. Hoje, como começa por nos dizer, encontra-se a viajar para Frankfurt, em negócios. Presente contrastante com o seu passado – não muito antigo – onde quem tomava as rédeas na família era o seu pai. A atividade era exercida dentro de fronteiras com austeridade. Entre o progresso e o fundamentalismo religioso, o país, onde vive, parece vacilar, não esquecendo as memórias de um tempo de pobreza em que tudo era tratado com rezas e remédios caseiros.

Os capítulos vão-se sucedendo tendo como pano de fundo al-Awafi. A narração vai-se dividindo entre Abdallah – na primeira pessoa – e um narrador omnisciente que aborda os pontos de vista das outras personagens: London; filha de Maya e Abdallah; Salima e Azzan, pais de Maya; Asma e Khawla, suas irmãs; Sulayman, pai de Abdallah e Zarifa, escrava e amante de Sulayman que, face à morte da mãe de Abdallah, veio a criá-lo.

Cada ponto de vista encontra-se estribado num momento temporal próprio. Abdallah fala-nos, claramente, num momento presente mas as restantes personagens estão em décadas diferentes que vão d o início do século até à contemporaneidade. Por essa razão, Celestial Bodies pode parecer, inicialmente confuso, mas a escrita de Jokha é tão fluída e cativante que, depressa, nos sentimos em casa quando pensamos em al-Awafi.

“Dizer que Celestial Bodies é uma saga multigeracional é simplificar o que Alharthi fez, que foi contar a história da mudança de Omã durante o último século — de uma tradicional sociedade rural e patriarcal em que o islão coexiste com o culto do espírito Zār, um dos últimos países do mundo a abolir a escravatura (em 1970), para um Estado do Golfo, urbano e rico em petróleo. E fê-lo de uma forma que muda de voz, de ponto de vista, de década, por vezes no espaço de um único parágrafo ou frase.” (Entrevista de Jokha Alharthi a Aida Edemariam, The Guardian, 8/7/2019.) – retirado de http://relogiodaguaeditores.blogspot.com.

Vencedor do Man Booker Prize 2019, Celestial Bodies é um romance ambicioso e intenso. Alharthi atira-nos, sem dó nem piedade, para o seio de uma família marcada por suicídio, adultério, amores não correspondidos e, ainda, homicídio. O livro navega sobre as águas complexas do fluxo de consciência sendo notável a forma como a Autora domina uma narrativa crescentemente complexa. Por essa razão, este é um riquíssimo pedaço de literatura que oferece um olhar, profundamente tocante e humano, sobre uma cultura tão diferente que, recebe, nos dias de hoje, nada menos do que incompreensão, no melhor cenário. Este é uma daqueles raros livros sobre seres humanos, independentemente de raça, religião, educação ou estrato social. Tem tudo que ver com compaixão e empatia.

Um livro poético e incrivelmente rico que agradará, certamente, a todos os que gostam de olhar para além das diferenças culturais.

Em Portugal, Celestial Bodies será publicado, brevemente, pela Relógio D’Água Editores.

Sobre a autora: Jokha Alharthi é uma Autora Omanesa, educada entre o país onde nasceu e o Reino Unido. Doutorada em literatura clássica árabe, tem dez livros publicados sendo que Celestial Bodies foi o seu primeiro título em inglês. Conseguiu a proeza de ser a Autora do primeiro romance árabe vencedor do Man Booker Prize.

  • Editora: Sandstone Press Ltd
  • Páginas: 243
  • Ano da Primeira Publicação: 2019
  • Género: Romance

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