Adèle de Leïla Slimani

A crua jornada de uma mulher e as suas compulsões sexuais.

Adèle é mulher, mãe, esposa e jornalista. Vive, confortavelmente, num bairro respeitado em Paris com o marido, médico de profissão, que quer prover pelo sustento da família. Esta, exemplo claro de uma burguesia bem-sucedida, parece perfeita. Os jantares em família e amigos tocam, invariavelmente, nas condições aparentemente ideais para o aumento da família. O marido de Adèle, de nome Richard, sorri e fala dos planos em desenvolvimento para um novo filho. Estão à procura de uma casa nos subúrbios – diz ele – e Adèle acena. Não fala porque se o fizer, arrisca-se a romper, de vez, com os laços que a prendem aquela existência mundana e insatisfatória.

Quando não está ao serviço enquanto esposa ou mãe, Adèle faz sexo, desenfreado e sem sentido, com estranhos numa procura incessante pela sua própria punição física. Nas suas palavras, ela deseja ser despedaçada por um ogro, no seu jardim. Os seus institutos de auto-destruição levam-na a comportamentos de risco que variam entre sexo desprotegido, agressões nos órgãos genitais e longos períodos de jejum.

Pela descrição acima, podem já adivinhar o quão visceral e cru, este livro é. Slimani domina a narrativa, criando uma protagonista complexa e profunda que nos choca, a cada página. A sexualidade feminina surge, aqui, associada a perversão e doença, ao invés, do habitual erotismo. Aliás, não há nada de sensual ou aprazível em Adèle. Pelo contrário, o leitor não consegue deixar de se sentir desconfortável e receoso face às possíveis consequências do comportamento da personagem-título. Para alguns, o foco pode ser o vício sexual mas, para mim, o sexo é meramente acessório. O ponto não é tanto a sexualidade – per si – mas mais o transtorno mental que está na sua origem e, que, é tão comum, nos dias de hoje.

Aí reside a importância deste livro que foge das motivações da personagem – tantas vezes desconhecidas na vida real – para se focar no relato dos seus comportamentos diários. Esta é a existência de uma mulher que, não obstante, a sua presença física, encontra-se profundamente alienada da sua própria vida. E quão comum isto é, nos dias de hoje. 

Sobre o livro:

Adele tem tudo para ser feliz.
Mas falta-lhe tudo.
Vive sem prazer, numa solidão extrema.
Dentro dela, um fogo consome-a vorazmente, sem piedade: um desejo insaciável, uma necessidade imparável de somar conquistas e amantes.
No jardim do ogre é a história de um corpo escravo das suas pulsões.
Um romance de traições, mentiras e desilusões.
Mas é, ainda assim e sobretudo, um romance de amor.

O livro de Leïla Slimani é de difícil leitura porque retrata a queda de uma mulher, extremando os seus comportamentos e sentimentos. Esta é uma história chocante e, por isso mesmo, envolvente que não deixa ninguém indiferente. A própria personagem título é irresistível, não só para as suas conquistas como, igualmente, para os seus leitores. O segredo está na amoralidade com que os acontecimentos nos são relatados. Não há qualquer julgamento ou ilação de Adèle… nem mesmo pena. Aliás, o único sentimento presente no livro será o do leitor que penderá, no mínimo, para a compreensão.

Um livro devastador que deve ser lido e relido.

Sobre a Autora:

Leila Slïmani é uma escritora e jornalista franco-marroquina. Tem já alguns livros publicados sendo o mais conhecido o Chanson Douce – em português, Canção Doce – que lhe rendeu o Prix Goncourt. Em Portugal, a par do título já mencionado, tem ainda publicado Adèle traduzido como No Jardim do Ogre. A Autora trabalha ainda na diplomacia sendo representante do Presidente Francês Emmanuel Macron junto da Organisation internationale de la Francophonie. 

  • Editora: Faber & Faber
  • Páginas: 224
  • Ano da Primeira Publicação: 2014

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