Animal Farm de George Orwell

Uma sátira brilhante sobre a origem e perigos do socialismo.

A primeira vez que me encontrei com Orwell foi em casa de uma amiga, há mais de 15 anos. Confesso que, naquela altura, não era grande leitora mas já colecionava livros porque apesar de não os ler, sempre os respeitei – se é que isto faz algum sentido. Enfim, essa minha amiga tinha a coleção Mil Folhas do Público e, por mero acaso, reparei no título de um certo livro – 1984. Lembro-me de tentar perceber o que tinha acontecido de relevante nesse ano porque, no alto da minha ignorância, achava que o livro tinha um cunho histórico. O telemóvel ainda não dava para pesquisas na internet e computador – em casa – apenas servia propósitos escolares. Curiosa que sou, pedi-lhe o livro e, semanas mais tarde, terminei a leitura daquele que seria um dos livros mais importantes da minha vida.

O impacto de 1984 foi tão forte que nunca mais consegui ler um livro de Orwell, durante anos. A angústia deixada pelo livro afastou-me do seu Autor sendo que tudo mudou este ano. Isto porque decidi ler Animal Farm, não obstante a certeza de que esta seria uma leitura igualmente agonizante. Não porque Orwell falhe em cativar-me com a sua escrita irrepreensível e envolvente, mas porque o Autor me conquista a cada linha para, no final, deixar a realidade destruir qualquer expectativa mais otimista.

Sobre o livro:

À primeira vista, este livro situa-se na linhagem dos contos de Esopo, de La Fontaine e de outros que nos encantaram a infância. Tal como os seus predecessores, Orwell escreveu uma fábula, uma história personificada por animais. Mas há nesta fábula algo de inquietante. Classicamente, atribuir aos animais os defeitos e os ridículos dos humanos, se servia para censurar a sociedade, servia igualmente para nos tranquilizar, pois ficavam colocados à distância, «no tempo em que os animais falavam», os vícios de todos nós e as sua funestas consequências. Em A Quinta dos Animais o enredo inverte-se. É a fábula merecida por uma época – a nossa época – em que são os homens e as mulheres a comporta-se como animais.

Animal Farm ou Quinta dos Animais – tradução lançada em Portugal – foi escrito por George Orwell em 1945 tendo, claramente, como alvo a revolta socialista e o comunismo. Todavia, reduzir esta magnífica sátira a um único movimento político é, na minha ótica, depreciativo. Isto porque a obra de Orwell transcende ideologias políticas refletindo sobre a forma como a verdade e a história podem ser, facilmente, manipuladas em favor de uma narrativa. Terminada a leitura deste pequeno livro, não pude deixar de observar como o mesmo configura um círculo mostrando as similaridades entre uma ideologia de extrema direita – personificada no homem agricultor que explora sem produzir – e extrema esquerda – personificada nos animais que, em nome da coletividade, produzem e exploram desenfreadamente, sacrificando o seu individualismo.

Orwell oferece-nos um livro provocador e obrigatório. A sua mensagem é para todos os Estados onde a liberdade surge ameaçada e não se enganem com o facto de esta história ser contada em jeito de parábola porque Animal Farm não é um livro para crianças. Pelo contrário, é uma alegoria satírica magnífica sobre abuso de poder onde um grupo de animais e homem se degladeiam por uma quinta melhor para os restantes. Sucede que, à semelhança da vida real, raras são as vezes em que os mais afetados com mudanças políticas e financeiras são ouvidos, assumindo um lugar mais ativo do que o de meros observadores numa existência onde deviam desempenhar o papel principal.

Este é um livro incisivo e assertivo que coloca em causa algumas das principais ideologias políticas da segunda metade do século XX. Deixa-nos, tal como 1984, com um sabor amargo, mas cuida bem da nossa acuidade mental.

Em Portugal, as edições mais recentes têm sido traduzidas com o título literal “A Quinta dos Animais”. Depois de lido, posso afiançar que o anterior título “O Triunfo dos Porcos” fazia mais sentido. 

Sobre o Autor:

George Orwell é o pseudónimo de Eric Arthur Blair, jornalista, escritor e ensaísta britânico nascido a 25 de junho de 1903. Conhecido pela sua intensa oposição ao totalitarismo e simpatia pela anarquia, Orwell foi autor de alguns dos principais clássicos do século XX, como é o caso de 1984 e A Quinta dos Animais. A influência de Orwell na cultura contemporânea perdura até hoje. Vários neologismos criados por ele, assim como o termo orwelliano — palavra usada para definir qualquer prática social autoritária ou totalitária — já fazem parte do vernáculo popular.

  • Editora: Penguin Books
  • Páginas: 95
  • Ano da Primeira Publicação: 1945

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