Tess dos Urbervilles de Thomas Hardy

Um romance implacável que questiona, severamente, os valores morais da Inglaterra Vitoriana, apresentando-nos uma protagonista igualmente carismática e triste.

Escrito em finais do século XIX (1891), Tess dos Urbervilles é, talvez, o romance de Thomas Hardy mais conhecido. Considerada peça basilar da literatura inglesa, a história da jovem Tess conquistou leitores, um pouco por todo o mundo, tendo inclusive ganho uma adaptação cinematográfica, em 1979, pelas mãos do polaco Roman Polanski.

O livro, considerado a maior obra de Thomas Hardy, conta-nos a sinuosa história de Tess, uma jovem nascida e criada numa aldeia inglesa profundamente rural, denominada Marlott. Ora, a história inicia-se com o encontro fortuito do pai de Tess com o pastor Tringham que lhe revela a sua descendência de uma família de cavaleiros, de nome Urberville. Entusiasmado com a possibilidade de pertencer a uma família nobre e abastada, o pai de Tess conta o facto da família e juntos descobrem haver uma senhora muito rica de nome Urberville em The Chase, aldeia localizada a algumas léguas de Marlott. Perspectivando receber ajuda financeira dessa parente abastada, os pais de Tess, muito pobres, enviam a filha para trabalhar na casa de Mrs. Urberville. Aí, Tess trava conhecimento com Alec Urberville, filho da tal parente, que instantaneamente se sente atraído pela sua beleza. Apesar da sua resistência, a jove acaba por cair vítima de Alec num dos acontecimentos mais marcantes do romance que, inevitavelmente, ditará jornada subsequente da nossa protagonista.

Publicado inicialmente, através de fascículos, no jornal Graphic, o romance Tess dos Urbervilles não teve grande acolhimento junto do público leitor. Isto porque Thomas Hardy desafiou, com esta história, a moral estabelecida nessa altura, ao tratar, abertamente, temas como sexualidade e religião. O título original do livro Tess D’Urbervilles – A Pure Woman Faithfully Presented (infelizmente omitido na tradução portuguesa) surge porque o autor acreditava que a sua heroína era uma vítima virtuosa dessa mesma moralidade condensada num código estrito.

O romance traça a vida difícil de Tess, de nome Durbeyfield, a quem a subsequente atribuição de um título que nada trouxe mais do que desgraça. Destarte, Tess, por causa desse mesmo título, é entregue pelo seu pai às mãos de uma parente qualquer abastada onde conhece Alec que traz consigo uma série de infortúnios que levam à perda de alguém amado e à alienação social e, mais, tarde, sofre o peso de uma herança que nunca pediu ao ser recusada por quem lhe prometeu tudo. De facto, Tess não nos poupa nenhuma da sua tragédia pessoal, marcada pela injustiça social de um meio, profundamente, rural.

Uma das principais questões provocadas pelo livro é a de saber se Tess foi uma mera vítima ou, de alguma forma, teve responsabilidade no seu próprio destino. Isso acaba por decorrer, desde logo, do final da primeira parte do livro onde o leitor se questiona se (SPOILER) a jovem foi ou não violada por Alec Urberville – personagem nefasta e representativa do desdém pela figura feminina. De qual forma, quando Tess se apaixona por Angel e aceita casar com ele, somos levados a questionar se a mesma deveria ou não ter, antes do matrimónio, contado a este o seu passado.

É ainda de realçar a divisão do romance em sete fases:

  1. A Jovem – Indicativa da inocência de Tess. Como o Autor nos descreve, “nessa época da sua vida, Tess Durbeyfield representava a emoção pura, desprovida de toda e qualquer experiência.”
  2. Mulher – Na segunda fase, Tess lida com as consequências imediatas da sua experiência sexual analisada sobre o seu ponto de vista, o da sociedade e da natureza. Permanece pouco claro de que forma foi essa experiência vivida. Todavia, há uma clara separação entre a Tess antes e pós-sexo – de jovem simples passa a mulher complexa. A jovem é profundamente ostracizada sendo evidente o julgamento da natureza vs. julgamento da sociedade. O que ela fez foi algo natural mas, ainda assim, a moral impõe que seja castigada.
  3. O Reacordar – A renovação de Tess – na Primavera numa clara referência à ao próprio estado natural das plantas e animais da estação – surge com a sua partida para Froom Valley, onde trabalhará numa quinta a ordenhar vacas. Tess sente “renascer a alegria no seu íntimo”.
  4. A Consequência – Não é muito clara a razão deste título para a quarta fase. Sentindo-se culpada por tudo o que aconteceu, nesse resiste às investidas de Angle, não obstante o amor que sente por ele. A natureza entra, mais uma vez, em confronto com as normas sociais já que o amor não parece superar as concepções e determinações morais incutidas nas personagens.
  5. A Mulher Expia – Título adequado à hipocrisia de Angel. Esta fase evidencia as diferenças de tratamento do mesmo comportamento consoante o seu Autor seja homem ou mulher.
  6. O Convertido – Tess reencontra Alec, o homem que marcou o início a destruição. Devido à influência de dois estranhos, tanto Alec como Angel se convertem em versões diferentes deles mesmos. O primeiro torna-se pregador, o segundo sofre uma mudança emocial que lhe permite ver a vida, de outra forma. Em inglês, o título desta secção tem ainda a menção “A Pure Woman” . Numa entrevista, concedida em 1982, Hardy defendeu o subtítulo dizendo “I still maintain that her innate purity remained intact to the very last; though I frankly own that a certain outward purity left her on her last fall. I regarded her then as being in the hands of circumstances, not morally responsible, a mere corpse drifting with the current to her end.
  7. O Desfecho – O fim trágico de uma história de sofrimento.

Sobre Hardy, D.H. Lawrence disse “The vast, unexplored morality of life itself, what we call the immorality of nature, surrounds us in its eternal incomprehensibility…. And this is the quality Hardy shares with the great writers, Shakespeare or Sophocles or Tolstoi, this setting behind the small action of his protagonists the terrific action of unfathomed nature; setting a smaller system of morality, the one grasped and formulated by the human consciousness within the vast, uncomprehended and income prehensible morality of nature or of life itself, surpassing human consciousness.” Estas afirmações têm muito que ver com o conteúdo de Tess Dos Urbervilles, onde Hardy ridiculariza as regras morais, mundanas, demasiado pequenas por comparação à amoralidade da natureza. Todo o sofrimento de Tess teve origem nas convenções sociais e nos padrões regulativos da época, relativamente aos quais, a jovem não conseguiu vencer.

Este é um romance inquietante e duro que nos confronta com uma heroína empática nos seus constantes esforços para ser aceite pela sociedade. Apesar das circunstâncias que lhe foram impostas, Tess lutou por controlo, liberdade e dignidade. Infelizmente, só veio a encontrar tais sensações na tragédia do seu próprio fim.

Sinopse:

Quando Tess Durbeyfield, instigada pela pobreza, se dirige à abastada família D’Urbervilles, o encontro com o seu primo Alec revela-se um momento perigoso. Um homem, Angel Clare, oferece-lhe o que parece ser amor e salvação, e Tess tem de decidir se revela o seu passado ou se mantém o silêncio, na esperança de um futuro melhor. Tendo como personagem uma Tess crítica e vítima das convenções sociais, este é um dos romances mais comoventes de Thomas Hardy.” retirado de wook.pt.

Sobre o Autor:

Thomas Hardy nasceu em 1840 em Dorset, Inglaterra. A sua infância foi passada no campo tendo-se mudado para Londres em 1862, onde trabalhou como arquiteto. Publicou o seu primeiro romance, Desperate Remedies, em 1871 sendo que o êxito do mesmo o levou a abandonar a arquitetura para se dedicar à escrita. É considerado um dos grandes escritores realistas do período vitoriano. Fortemente influenciadas por George Eliot, William Wordsworth, e também por Charles Dickens, as obras de Thomas Hardy abordam temas relacionados com o casamento, a educação e a religião e o modus vivendi que poderá ser a causa da infelicidade humana. Dos vários livros que escreveu, destacam-se Tess D’Urbervilles, Longe da Multidão, O Mayor de Casterbridge e O Pregador Atormentado, todos publicados em Portugal.  

Breve Ficha técnica:

  • Editora: Círculo de Leitores;
  • Páginas: 352
  • Ano da primeira publicação: 1891
  • Ano da Edição: 1983
  • Movimento Literário: Realismo

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