Ano velho, ano novo: o que foi e o que será

Escrevo esta publicação na primeira semana de 2020. Ao contrário de milhões de pessoas espalhadas por este mundo, não celebro, efusivamente, a passagem de ano. A verdade é que não acho que haja uma grande diferença entre a Daniela a 31 de dezembro e a Daniela a 1 de janeiro. Um niilista diria que os anos/meses/dias não passam de construções humanas para atribuir tangibilidade ao tempo. Não chego a esse extremo, mas não acredito que o crescimento e a mudança surjam à meia-noite do dia 31 de dezembro. Estas são construções temporais eternas que não se coadunam com a efemeridade do minuto entre as 23:59 e as 24:00.

Ainda assim, e no cômputo dos 12 meses que separam janeiro e dezembro de 2019 – esse sim período suficientemente longo para execução de projeções, amadurecimento e crescimento – impõe-se falar do que, por aqui, andei a fazer e, ainda, o que pretendo executar.

Bem, no último ano, li muitos livros de qualidade. No total, foram 58 e, apesar de eu achar que números não são mais do que isso, a verdade é que adoro estatísticas. Isto é, gosto de saber o número de livros que li, não porque me quero superar em número, mas porque me interessa saber os géneros que li mais, o tamanho médio dos livros, as classificações que dei, etc. Para terem uma ideia, não obstante, ter lido o número de livros, acima identificado, mantive o número de livros a ler em 2020, no desafio Goodreads. Porquê? Porque não me interessa ler mais, interessa-me sim ler livros, cada vez, melhores.

Assim, dos 58 livros que li, 13 foram clássicos, sendo de destacar o Mestre e a Margarida de Mikhail Bulgakov – humor russo no seu melhor-, O Primo Basílio do grande Eça de Queiroz e ainda O Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien – a demanda mágica à Idade Média que me apaixonou. Li, igualmente, 17 livros de literatura contemporânea destacando, neste domínio, Tayari Jones com An American Marriage – reflexão pertinente sobre a questão racial americana, Margaret Atwood e A História de uma Serva, Leila Slimani, com sua magnífica Adele e Javier Marías com Berta Isla – um livro que aprendi a gostar. Entretanto, redescobri a minha adoração por thrillers com a coleção Sebastian Bergman dos suecos Hjorth Rosenfeldt tendo, no total, lido 6 livros. A partir do primeiro volume da série – Segredos Obscuros -, fui à descoberta de outros Autores como a dinamarquesa Sara Blaedel e o suíço Joël Dicker. A propósito deste último, terminei o ano com o grande thriller A Verdade sobre o Caso Harry Quebert. Já no género fantasia, li 8 títulos, entre os quais, O Senhor dos Anéis de Tolkien e ainda, o divertidíssimo, Anna Dracula de Kim Newman.

2019 foi o ano em que explorei, e muito bem, as novelas gráficas. Iniciei com Pyongyang de Guy Delisle, que me divertiu imenso, continuei com Fun Home: Uma Tragicomédia Familiar de Alison Bechdel, Sabrina de Nick Drnaso, Foi Assim a Guerra das Trincheiras de Tardi, entre outros, e terminou com As Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy de Filipe Melo e Juan Cavia. No total, foram 7 sendo que espero vir a ler mais em 2020. No que concerne a autores nacionais, foram 5 os escolhidos, entre os quais, os já mencionados Filipe Melo e Eça de Queiroz e ainda Saramago, João Reis e João Tordo.

Li ainda 6 livros de não ficção sobre diferentes temas. Desde o feminismo com a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie – We Should All be Feminists – ao massacre do Carandiru com o médico brasileiro Drauzio Varella – Estação Carandiru, passando pela Segunda Guerra Mundial, o desastre Chernobyl e ainda a investigação sobre a identidade de um prolífero serial killer americano.

Porque sou um ser humano que adora listas, no meio destes 58 livros, claro que destaquei alguns, no caso 10, como sendo os melhores dos melhores. Como referi no início deste texto, foi um grande ano literário o que dificultou, e muito, o crivo dos livros que, por variadas razões, mais me marcaram.

Ainda assim, aqui vai:

  1. Vampiros de Filipe Melo e Juan Cavia – uma novela gráfica que me ensinou e comoveu; 
  2. A Estrada Subterrânea de Colson Whitehead – um romance que me chocou e sensibilizou;
  3. Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago – o tratado sobre a existência humana que me angustiou e apaixonou; 
  4. Sei porque o Pássaro canta na Gaiola de Maya Angelou – a biografia que me fez acreditar; 
  5. A Guerra não tem Rosto de Mulher de Svetlana Alexievich – os relatos de Guerra que se alojaram na minha alma; 
  6. Quinta dos Animais de George Orwell – a parábola política que me fez duvidar; 
  7. As Brumas de Avalon de Marion Zimmer Bradley – a fantasia que me fez sonhar; 
  8. O Som e a Fúria de William Faulkner – o clássico que me desafiou, como nunca outro o tinha feito; 
  9. A Avó e a Neve Russa de João Reis – a história que me transportou para algumas das memórias mais felizes da minha vida; 
  10. Se Esta Rua Falasse de James Baldwin – o romance que me trouxe as lágrimas e o blues. 

São todos livros magníficos… daqueles que aconselho de olhos fechados. Mas o ano não foi só feito de leituras extraordinárias. Tive algumas experiências menos boas como foi o caso d´A Companhia Negra de Glen Cook e Nenhum Olhar do José Luis Peixoto. Talvez tenha lido os livros no momento errado, mas nenhum dos dois se revelou uma experiência prazerosa. A certa altura, abandonei a leitura e essa é a razão pela qual nunca falo de experiências de leitura menos boas. Acredito que a vida é muito curta para perder tempo com livros que não nos cativam. Assim, não hesito em abandonar um livro. Hesito, sim, em obrigar-me a fazer algo que não me dá o mínimo prazer.

Bem, este foi o ano velho! Impõe-se perceber o que será o ano novo! O Porta Setenta surgiu em agosto/setembro de 2018 para ser um espaço de partilha de gostos literários. Nunca aspirou a mais do que isso, até porque a pessoa por trás do blog não tem formação para mais. As minhas análises são muito superficiais porque se prendem àquilo que são as minhas percepções. Todavia, é inegável, para mim, que o instagram e o blog dão-me um prazer danado. Adoro escrever sobre livros e trocar opiniões com outros leitores. Por essa razão, decidi dedicar-me mais a este espaço.

O que isso significa na prática?

  • Publicações semanais;
  • Newsletter mensal.

Sim, o Porta Setenta terá uma newsletter mensal que permitirá aos interessados aceder a todas as publicações, sem ter de monitorar o blog. A primeira newsletter será enviada ainda este mês, na última semana, sendo que qualquer um de vocês se poderá inscrever através do formulário, para o efeito, disponibilizado na barra lateral.

Será um ano de criação de conteúdo e muita leitura, como sempre. No dia em que criei este blog, pensei que seria algo para me entreter durante uns dias. A questão é que já conta mais do que um ano e, hoje, seguramente, não é mero entretenimento. É veículo de exteriorização de um amor maior – a literatura. E, nesse espírito, é minha intenção, para além dos pontos acima identificados, ampliar o universo do Porta Setenta através da interconexão da literatura com outras ciências humanas, sendo as mesmas, o Direito, a ciência política, a filosofia e a história. Como? Verão brevemente.

FELIZ ANO NOVO!

Obrigada por estarem desse lado!

(2) Comments

  1. Excelente ano de leituras! Acho fantástico como conseguiste ler tantos livros e bastante diversificados. Do teu top 10, ainda só li o “Quinta dos Animais”, “Brumas de Avalon” e “Se esta rua falasse”…todos eles muito bons e excelentes recomendações.
    Tenho esse de Faulkner na estante mas estou sempre a adiá-lo; é realmente um autor que me intimida.
    Espero que 2020 te continue a trazer boas leituras e eu estarei aqui para acompanhar o teu cantinho. Muito curiosa com as novidades que pretendes introduzir. Bom ano!

    1. Daniela Guimarães says:

      Olá Sofia,

      muito obrigada pelo teu comentário. Sim, foi um ano extraordinário e não podia estar mais feliz. Faulkner é, sem dúvida alguma, o autor mais desafiante que li até hoje. O Som e a Fúria é pujante e extremamente complexo mas, por isso mesmo, de uma riqueza indescritível. Espero que arrisques um destes dias com ele. Acho que não te arrependerás.
      Que 2020 seja um grande ano literário (e não só ;)) para as suas! Boas leituras e muito obrigada por visitares o meu “cantinho”.

      Feliz Ano Novo!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *