Caim de José Saramgo

Um livro mordaz e impiedoso sobre deus, caim e todos nós. 

A minha segunda incursão pelo univero saramaguiano não podia ter sido mais intensa. Caim é um livro carregado de ironia que não hesita em troçar da religião católica e, em especial foco, dos seus crentes. Um livro facilmente incompreendido, como todos os que se pautam por essa genialidade de difícil acesso, que procura refletir sobre dogmas, interpretação e simbolismo religioso.

O Autor explora, com efeito, e pela segunda vez – a primeira foi em 1991 com a publicação do afamado O Evangelho Segundo Jesus Cristo – o universo bíblico. Como protagonista do seu “manifesto” surge Caim, personagem bíblica emblemática, conhecida por ter assassinado o seu próprio irmão, Abel, cometendo, assim, o primeiro homicídio da história da humanidade. Segundo a Bíblia, Caim terá morto o irmão por inveja quanto à atenção que Deus lhe parecia dispensar. Esse motivo tão sórdido acaba por levar o Autor a identificar deus – nomeado com letra minúscula – como o autor moral do crime. 

“Sacrilégio, Será, mas em todo o caso nunca maior que o teu, que permitiste que abel morresse, Tu é que o mataste, Sim, é verdade, eu fui o braço executor, mas a sentença foi ditada por ti (…) Tão ladrão é o que vai  à vinha como aquele que fica a vigiar o guarda” 

Fruto da sua própria culpa, deus condena Caim a vaguear por toda a eternidade, concedendo-lhe uma marca que o protegerá da ira de justiceiros e vingadores. Caim parte por realidades temporais distintas, cruzando-se com outras personagens biblícas relevantes, como Noé, Abraão ou Lot e assistindo a eventos como a destruição de Sodoma e Gomorra. 

Em Caim, Saramago permite-se ironizar o único livro considerado Património da Humanidade, como é a Bíblia. O seu tom é mordaz e, por vezes, cruel, refletindo, a ausência de convicções católicas do autor, confesso ateísta. Na verdade, ao ler Caim, o leitor está a ler um acerto de contas, há muito ansiado. O acero não é, como inicialmente pensei, com deus, mas sim com os seus criadores e crentes. Como foi possível a criação de uma figura divina tão egoísta, caprichosa e ciumenta? Como foi possível a tantos seres humanos a sua devoção? Caim é um livro que não serve a todos. A mim serviu porque partilho de algumas das opiniões manifestadas oor Saramago, a partir de Caim. É engraçado como, hoje, se defende a noção de que livros sagrados como a Bíblia estão carregados de simbolismo e não devem ser interpretados, de firma literal. Porém, durante séculos, essa mesma ideia era inexistente. O mundo havia surgido da união de Adão e Eva, Caim era, de facto, o primeiro assassino da história e Abraão não hesitou quando lhe foi pedido para matar o próprio filho. Estas histórias eram acreditadas como sendo reais. A própria ideia de que devemos amar a deus sobre todas as coisas é incrivelmente nociva. Num registo mais pessoal, recordo-me de, na infância, me debater com este pensamento de que deveria amar Deus sobre tudo.

Bem, voltando ao livro, estas são as reflexões e questões que o mesmo espoleta no leitor. É um “retelling” brilhante de algumas das passagens mais emblemáticas da Bíblia. Muitas vezes, cáustico e agressivo, mas devidamente fundamentado. Há quem tenha chamado este livro da “reivindicação de Caim”. Eu acredito que é bem mais do que isso, é a reivindicação do próprio Saramago, mas também de todos os inconformistas que, como ele, se recusaram a prestar devoção a uma personagem fantástica – saramago acreditava que deus existia apenas na fantasia dos homens. Para Saramago, deus não é mais que um pretexto para que as religiões possam escravizar a consciência humana. E essa é a dura mensagem de “Caim”.  

“A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende, nem nós o entendemos a ele” José Saramago, Caim. 

Sobre o livro:

“Pela fé, Abel ofereceu a Deus um sacrifício melhor do que o de Caim. Por causa da sua fé, Deus considerou-o seu amigo e aceitou com agrado as suas ofertas. E é pela fé que Abel, embora tenha morrido, ainda fala.” (Hebreus, 11.4)

Sobre o Autor:

José Saramago (1922-2010) é um escritor que dispensa apresentações. Vencedor do Prémio Nobel da Literatura, em 1998, e do Prémio Camões, em 1995, Saramago é considerado o grande responsável pelo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa. Um autor ímpar que conta, na sua extensa obra, com títulos como Ensaio Sobre a Cegueira, Todos os Nomes, Memorial do Convento e Evangelho segundo Jesus Cristo.

Breve Ficha técnica da Edição lida: 

  • Editora: Caminho 
  • Páginas: 181
  • Ano da primeira publicação: 2009

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