Vieram como Andorinhas de William Maxwell

Um compêndio de memórias transformado em ficção carregada de saudade e angústia.

Um pequeno livro com uma história tão terna sobre os desafios do quotidiano de uma família americana burguesa por alturas do final da Primeira Grande Guerra. No centro da narrativa está uma mãe e esposa amada pelos seus filhos, Bunny e Robert, e pelo seu marido, James. Estruturado em três planos, os personagens masculinos do livro falam ao leitor dos seus dias simples e rotineiros cujo equilíbrio é plenamente assegurado por essa figura maternal e doce. Um dia, aquela pacata casa é invadida pela gripe espanhola e, com a mesma, vem toda a tragédia que as verdadeiras pandemias trazem. 

Há livros que nos conquistam pela complexidade da narrativa, pelas cenas dramáticas e espetaculares, no verdadeiro sentido da palavra, pelas personagens cativantes ou pelos cenários idílicos. E depois há Vieram como Andorinhas de William Maxwell que não tem nenhum dos elementos enunciados. Não oferece uma narrativa particularmente memorável ou entusiasmante e as personagens limitam-se a viver. Mas é nas subtilezas que se esconde o diabo ou, no caso, a beleza. E Maxwell conquista o leitor com o seu estilo transparente (palavras do The Guardian!). Aqui não há grandes planos ou subcontextos; o Autor oferece o que é lido. Todavia, o leitor dá por si completamente imerso nas página de Vieram Como Andorinhas. Isto porque é um livro incrivelmente bem escrito, que se lê de uma assentada só.

Na minha opinião, Vieram Como Andorinhas acaba por ser um compêndio de memórias e ficção do próprio Autor que perdeu a mãe muito cedo, precisamente, para a gripe espanhola. É uma história elegante que complementa angústia com saudosismo. Um elogio à infância e à beleza do dia rotineiro. William Maxwell oferece-nos uma bela prosa, não uma bela história. Ora, sendo eu, precisamente, uma amante de histórias, podem imaginar que esta foi uma leitura particularmente interessante. Primeiro. fez-me pensar muito sobre a diferença entre enredo, escrita e linguagem. O facto de Vieram como as Andorinhas não ser um livro que me tenha ofertado muito, não implica que eu não saiba reconhecer a mestria do Autor na forma como retrata o ordinário e as emoções das suas personagens. Desde a forma como ele se coloca na mente de um menino de oito anos completamente apaixonado pela mãe para, de seguida, assumir as emoções e revolta de um adolescente que se entretém a torturar o irmão para esquecer as suas verdadeiras dores e, por último, tomar o lugar de um pai desorientado pelo luto que tem de fazer.

Vieram como as Andorinhas foi escrito em 1937 mas poderia ter sido ontem, tal é a sua intemporalidade. Acima de tudo, esta é uma história de sentimentos e esses continuam os mesmos, independentemente da época em que vivamos.

Sobre o Livro:

Inteligente, subtil e soberbamente escrito, Vieram como andorinhas é um breve romance sobre um rapaz extremamente sensível crescendo numa cidade pacata no estado de Illinois. Contado do ponto de vista do jovem Bunny, a narrativa convida-nos a explorar as suas relações com o pai, a tia, o irmão e, sobretudo, a sua maravilhosa e adorada mãe. É um retrato poético e perspicaz de uma família burguesa americana enfrentando os problemas diários da vida durante a pandemia de gripe que matou milhões de pessoas no mundo em 1918-1919. O génio de Maxwell prende-se com a sua capacidade de exprimir emoções profundas e complexas através de observações simples e magnificamente descritas.

Sobre o Autor:

William Maxwell (1908-2000) foi um Autor e editor Americano. Escreveu seis romances, várias short stories e ensaios, contos infantis e uma biografia, Ancestors (1972). O seu trabalho em ficção, galardoado com vários prémios, é considerado um dos mais importantes do século XX. O Autor abordou, recorrentemente, temas relacionados com a infância, família, perda e vidas que mudam irreparavelmente. Muito do seu trabalho é autobiográfico abordando a morte da sua mãe, quando Maxwell tinha apenas 10 anos, e o seu crescimento no oeste rural americano. Em Portugal, a par de Vieram como Andorinhas, encontra-se ainda publicado o seu romance mais conhecido, Adeus, Até Amanhã, ambos pela Sextante Editora.

Breve Ficha técnica da Edição lida: 

  • Editora: Sextante Editora
  • Páginas: 128
  • Ano da primeira publicação: 2011

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