Guerra e Paz de Liev Tolstói

Uma obra digna das maiores comparações à Ilíada de Homero

A primeira vez que me enconcontrei com Tolstói foi arrebatadora. O livro escolhido foi a A Morte de Ivan Ilitch – reflexão desconcertante sobre a morte e a ausência de vida (que não são sinónimos). Desde aí, tenho procurado a oportunidade ideal para novo encontro tendo a encontrado com Guerra e Paz que se tornou na obra mais ambiciosa que li, na vida. O espelho do povo russo num momento em que lutava contra o progresso político e bélico de Napoleão Bonaparte ao mesmo tempo que assegurava a sua própria prosperidade, ameaçada por mudanças sociais inevitáveis.

Guerra e Paz é, inegavelmente, uma das maiores obras da literatura universal, não só em tamanho – mais de mil páginas divididas em quatro volumes –, mas, sobretudo, em qualidade. O livro tem como tema central as mudanças verificadas na sociedade Russa, no inicio do século XIX, tendo por maior foco a Terceira Coligação (1803-1805), Os Tratados de Tilsit (1807) e, por fim, a Campanha da Rússia (1812). Como protagonistas, surgem cinco famílias, com residência em Moscovo e São Petersburgo, a saber os Rostov, Bezukhovs, Bolbonskys, Kuragin e Drubetski. Entre as dezenas de personagens, podemos destacar:

  • Natacha Rostov – a sonhadora e alegre heroína romântica que, entre cantorias, surge, inicialmente, indiferente à instabilidade política do país;
  • André Bolbonsky – Anti-herói que luta bravamente pelo Czar sacrificando a sua própria família e sofrendo, consequentemente, uma profunda desilusão niilista;
  • Maria Bolbonsky – Irmã de André. Beata que acredita no sacrifício para a redenção espiritual. Cuidadora resignada do pai, o príncipe Nicolau, que a destrata constantemente;
  • Pedro Bezukhov – Surge inicialmente como o filho ilegítimo dum conde abastado para, depressa, se tornar no centro das atenções da elite de São Petersburgo. Herda a fortuna do pai e embarca numa jornada filosófica que o conduz à franco-maçonaria;
  • Nicolau Rostov – Irmão de Natacha. Vive dividido entre a necessidade de fazer um bom casamento e o dever de cumprir as promessas feitas à sua amada prima Sónia. Inicia a história como um jovem soldado russo fascinado pelo Czar para, rapidamente, se transformar num herói.

Tólstoi aborda as relações, sentimentos, derrotas e vitórias das suas personagens, incluindo, entre linhas narrativas, as suas próprias reflexões pessoais sobre a Rússia. 

Aquando da sua publicação, em 1869, Guerra e Paz logrou enorme sucesso comercial, mas não se livrou de críticas. Os veteranos da guerra de 1812 revoltaram-se contra a forma “pouco heróica” como Tolstói retratava os soldados russos. Por outro lado, a obra rompeu com os parâmetros literários da época sendo que a sua classificação como romance não foi isenta de polémica. Com efeito, antes de ler Guerra e Paz, muitas vezes me perguntei sobre o porquê de não ser fácil encontrar uma correspondente sinopse concisa. Hoje, sei que tal é, dada a sua grandiosidade, impossível. Os seus quatro volumes reúnem ficção histórica e não ficção. Do ponto de vista ideológico, Guerra e Paz é, em determinadas partes, um verdadeiro manifesto onde Tolstói discorre sobre a sua teoria fatalista da História, a ausência de livre arbítrio e o papel falacioso dos historiadores. O Autor alia narrativas complexas a factos históricos, sendo  claro o seu desprezo pela forma como a história da Rússia era contada. A ridicularização do trabalho dos  historiadores, e respetivas fontes e métodos de investigação, é constante. Para além de todo esta vertente político-filosófica, o livro oferece ainda um retrato riquíssimo da sociedade russa com todas as suas idiossincrasias. Facilmente, o leitor dá  por si perdido entre as dezenas de personagens e respetivas linhas narrativas.

O impacto de Guerra e Paz na cultura Russa  foi tanto que, por alturas do ataque de Hitler à União Soviética, em 1941, Estaline ordenou a reimpressão de passagens do livro, como forma de alimentar o espírito nacional na defesa patriótica da terra-mãe.

Guerra e Paz é um livro soberbo, desafiante e extremamente enriquecedor e, sim, é daqueles livros que exige motivação.  

  • Sobre o livro:

Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para o Ensino Secundário como sugestão de leitura.

Guerra e Paz é um verdadeiro monumento da literatura universal. Tolstói descreve as guerras movidas por Napoleão contra as principais monarquias da Europa, dissecando as origens e as consequências dos conflitos e, principalmente, expondo as pessoas e as suas vulnerabilidades com uma aguda perceção psicológica. O enredo deste romance cobre toda a campanha de Napoleão na Áustria, a invasão da Rússia pelo exército francês e a sua retirada, entre 1805 e 1820. Neste quadro épico movem-se mais de 550 personagens, além dos elementos das famílias aristocráticas principais, Tolstói criou um retrato realista e incisivo da sociedade russa de inícios do século XIX, denunciando o preconceito e a hipocrisia da nobreza, ao lado da miséria dos soldados e servos. Este romance presta-se ainda a expor as ideias do autor sobre o sentido da vida e a desenvolver as suas reflexões filosóficas em favor de uma sociedade mais justa e fraterna. O legado literário de Tolstói figura a par do de outros grandes escritores russos do século XIX entre os quais se destacam Dostoiévski, Pushkin, Turgueniev e Tchekov.

Considerado como um dos nomes maiores da literatura, este escritor, filósofo, pedagogo e até profeta, foi um defensor acérrimo das minorias e dos mais desfavorecidos, e um dos primeiros a insurgir-se contra a escravatura. Apesar das muitas perseguições a que foi sujeito, Lev Tolstói encontrou na escrita um refúgio e foi de forma sábia que abordou temas tão inquietantes quanto complexos. Entre 1865 e 1869 escreveu e publicou aquela que é talvez a sua obra-prima e uma das maiores criações literárias de sempre: Guerra e Paz. Sinopse oficial do livro .

  • Sobre o Autor:

Também conhecido como Léon Tolstói ou Lev Nikoláievich Tolstói (9 de setembro de 1828 – 20 de novembro de 1910) foi um escritor russo muito influente na literatura e política do seu país. Junto a Fiódor Dostoievski, Tolstói foi um dos grandes da literatura russa do século XIX. As suas obras mais famosas são Guerra e Paz e Anna Karenina. Membro da nobreza, entre 1852 e 1856 realizou três obras autobiográficas: MeniniceAdolescência e Juventude. Tolstói serviu no exército durante as guerras do Cáucaso e durante a Guerra de Criméa como tenente. Esta experiência convertê-lo-ia em pacifista. Associado à corrente realista, tentou reflectir fielmente a sociedade em que vivia. Cossacos (1863) descreve a vida deste povo. Anna Karenina (1867) conta as histórias paralelas de uma mulher presa nas convenções sociais e um proprietário de terras filósofo (reflexo do próprio Tolstói), que tenta melhorar as vidas de seus servos. Guerra e Paz é uma monumental obra, onde Tolstói descreve dezenas de diferentes personagens durante a invasão napoleônica de 1812, na qual os russos pegaram fogo a Moscovo. Tolstói teve uma importante influência no desenvolvimento do pensamento anarquista, concretamente, considera-se que era um cristão libertário. O príncipe Kropotkin lhe citou no artigo Anarquismo da Enciclopédia Britânica de 1911. Nos seus últimos anos depois de várias crises espirituais converteu-se numa pessoa profundamente religiosa, criticando as instituições eclesiásticas em Ressurreição, o que provocou a sua excomunhão. Tolstói tentou renunciar as suas propriedades em favor dos pobres, mas a sua família impediu-o. Tentando fugir da sua casa morreu na estação ferroviária de Astapovo. In Wook.

Breve Ficha técnica da Edição lida: 

  • Editora: Ulisseia;
  • Páginas: Vol. I – 378; Vol. II – 412; Vol. III – 433; Vol. IV – 410;
  • Ano da primeira publicação: 1865-1869.

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